Da Viagem de ácido ao pó

Da Viagem de ácido ao pó
(Marcos Augusto Gonçalves*)

O LSD inscrevia-se em um território bastante diferente daquele em que se dá o consumo das drogas na década de 80. Corria nas veias de uma contracultura de contestação. Associava-se a utopia hippie de rejeição ao real articulado pelo establishment. Tratava-se ali de explorar novos espaços para a consciência e a vida, de criar uma alternativa existencial dissociada dos padrões morais e produtivos da sociedade industrial, responsável pelo consumismo, pela adulteração dos alimentos, pela hipocrisia sexual, pela miséria, pela injustiça e, principalmente, pela violência e pela guerra.
     
A demarcação deste território se fazia, como é comum, através de uma coleção de atitudes-signos, traços distintivos que simbolizavam inequivocamente esta disposição de estar à margem, de não entrar em sintonia, de delimitar distâncias e de torpedear o sistema de crenças dominante. “Não submeter-se”, diria o psiquiatra David Cooper. A droga surgia - o que não acontece hoje, ao menos com a mesma intensidade - como uma peça-chave desta função demarcadora. Viajar de ácido era um requisito quase obrigatório para que se abrissem as portas da percepção do admirável mundo novo da juventude do poder da flor. Ingerir uma dose de Lsd significava oficiar o rito de passagem da esfera
tradicional e integrada à outra - a da negação alternativa. O mundo passou a ser dividido entre caretas e não caretas.

É exemplar que no mitológico musical Hair, o rapaz bem-comportado, que vai para o Vietnã, tenha que usar o ácido para penetrar inteiramente no imaginário caleidoscópio do hippie way of life. Da mesma forma, a famosa virada musical dos Beatles, foi acompanhada pelos estímulos lisérgicos. Não são pouco os que distinguem na canção Lucy in the Sky with Diamonds as iniciais do ácido - paralelo feito no Brasil com o verso “sem lenço e sem documento”, de Caetano Veloso. Em uma auto-entrevista, feita na época, com o título de Entrevista, Caetano respondia à pergunta sobre o que achava do LSD com um trocadilho de efeito: uma boa droga.

O caso dos rapazes ingleses é também em ilustrativo de uma outra especificidade do uso do alucinógeno na década de 60: sua vinculação à experiência mística. As associações entre ácido, gurus e doutrinas orientais são conhecidas. Esta circunstância recupera uma função ancestral do transe drogado, função sintomaticamente “pré-capitalista”, já que na sociedade moderna a droga tem autonomia face à religião - seu consumo é genericamente secularizado, mesmo que se tenham preservado resíduos de determinações religiosas.

Apesar do modo como os saudosistas se referem ao fenômeno - com uma overdose de nostalgia e ressentimento - é uma constatação que os anos 80 representam uma espécie de retorno aos valores do desempenho, da produção, do consumo. Este reingresso na Ordem - que tem sutilezas que não comportam a redução a um simples processo de aderência desavisada - redefine as relações que cercam a droga. Basicamente as oposições droga versos desempenho, droga versos caretice, desfazem-se e reorganizam-se. Com a revalorização do desempenho e do trabalho profissionalizado - processo emblematizado pela caricatura yuppie - mudou a droga: o LSD ficou para os sixties como a cocaína está para os eighties.

Se ao ácido se associavam a contemplação, o onirismo, a atitude estática e religiosa do retiro, a deformação perceptiva, a natureza e a idéia de viagem, associam-se à cocaína a atividade, o brilho, a megalópole em movimento, a verbalização, a ilusão da nitidez e a velocidade. A separação caretas e não caretas, tal como surgiu originalmente, já não diz muita coisa - como não dizem muito as designações esquerda e direita no campo da política. No bruhaha babélico informatizado dos oitenta a topografia dos rebeldes e integrados é multifacetada, menos definida, mais incorporativa do que excludente.

Esta integração droga-trabalho, aparentemente careta, pode ser até mais perigosa para o sistema do que a visibilidade propiciada pelas tribos alternativas, circunscritas a regiões relativamente autônomas, mas sob controle. O pó rola nas engrenagens da máquina. É consumido na euforia ou no crack - por sinal nome de um supra-sumo químico da cocaína - da City e de Wall Street, entre negócios e automóveis de luxo. O fenômeno motivou uma reportagem de capa na revista Time, que trata com um certo alarmismo o aumento do consumo de droga no trabalho. Ameaçando internamente, e não menos alarmado, Mr. Reagan tenta sanear as repúblicas que trocaram as bananas pela coca. Margareth Thatcher ajuda. Mas a cocaína populariza-se. O preço torna-se mais acessível. Antes conhecido por poucos, o pó de pirlimpimpim está ao alcance das reinações de narizinho das multidões. É difícil reverter a situação. Mesmo para Rambo, não é uma tarefa das mais simples subir o morro Dona Marta da América do Sul - onde os países produtores enchem os bolsos com o lucro do tráfico e contam com o apoio de boa parte da população pobre, que planta, e da rica, que colhe.

     *PUBLICADO NA FOLHA DE SÃO PAULO, 22 DE MARÇO DE 1988 - ESPECIAL-5.

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