Rock Made in Ceilândia chega às telas

Documentário "Rock Ceilândia - Periférico e coletivo" exalta bandas da cidade. Na região do hip-hop, as guitarras também têm vez. Tema de documentário, a cena roqueira da cidade conquista público, se organiza e aumenta o volume da crítica social

Tiago Faria - Correio Braziliense

ceilandia

Márcio, dos Maltrapilhos, João Frajola, do Terno Elétrico, Alexandre Medeiros, do QZera, Cilene Tyler, do Bonecas de Trapo, Raiane Gonoli, do Bonecas de Trapo, Anderock, do Atritus, André, do Vitalógica
13 dez. / 2009 - Nos corredores da edição mais recente do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o jornalista e cineasta Gil Pedro ouviu comentários que, para ele, soaram quase inacreditáveis. Pouco depois da sessão do curta-metragem Rock Ceilândia — Periférico e coletivo, concorrente ao Candango na mostra digital, encontrou espectadores espantados com a descoberta de que a cena musical da região administrativa mais populosa do Distrito Federal — com cerca 365 mil habitantes — não respira apenas hip-hop e forró. “As pessoas perguntavam: mas Ceilândia não é a capital do grafite, do rap? Pode parecer impressionante, mas há bandas de rock com 15 anos de estrada que são totalmente desconhecidas fora da cidade”, observa o diretor.
 

Músico há 20 anos, Gil tocou bateria em grupos como 5 Generais, Gangorra e Bazar Band. Vive em Ceilândia desde criança, onde cresceu ao som de rock ‘n’ roll. Na estreia como cineasta, optou por um tema que, para ele, soa familiar. O documentário, desenvolvido com ajuda de amigos e a custo irrisório (a equipe gastou R$ 100 para produzir uma cópia em beta, formato exigido por comissões de festivais — e só), cobra atenção para um traço pouco notado da cultura ceilandense: o rugido das guitarras.
 

 Com 20 minutos de duração, e a crueza de um refrão punk, o curta apresenta um retrato instantâneo (e, até certo ponto, esperançoso) do rock local. “Apesar de abrir o filme com imagens da construção de Ceilândia, o importante é mostrar que essas bandas existem”, explica Renato Rhugas, produtor do filme (também fundamental na equipe, Oldair Vieira cuidou da edição).

Ainda que sem o alcance do hip-hop, o rock exerce tremores subterrâneos na cidade. Entre os músicos, é unânime a impressão de que a cena passa por um momento de entusiasmo. Ainda assim, eles enfrentam antigas dificuldades: a carência de um circuito de shows, a escassez de incentivos (públicos e privados), a sensação de isolamento em relação ao centro do DF. “Em meio a todos os problemas, estamos resistindo. Há festivais que reúnem 4 mil pessoas”, observa Márcio, vocalista do punk Os Maltrapilhos. Há 15 anos no batente, o quarteto já se apresentou no Porão do Rock (em 2006) e teve CD lançado em Portugal. “No início da banda, era tudo precário: ninguém tinha instrumentos, a gente ensaiava no fundo do quintal. O pai reclamava que não aguentava mais o barulho”, lembra.

Ao lado do quarteto de blues-rock Terno Elétrico, que lançou o disco de estreia em 2009, Os Maltrapilhos é o nome mais conhecido do documentário. Divide a cena com bandas como Barbarella, Body in Flames, Atritus, Whisky 74, Guariroba Blues, Vitalógica, 9 Milímetros e Os Homi Rapaz Si Minino. Entre elas, predomina o espírito de coletividade e o gosto pelos sons pesados — do punk ao hard rock — e por versos que espelham o cotidiano. Curiosamente, a vocação para o protesto revela um certo parentesco com o hip-hop made in Ceilândia. “Escuto muito Câmbio Negro, Cirurgia Moral, Racionais. Assimilo as letras, o tom de indignação”, afirma Márcio, 34 anos.

Ao combate

 

Para João Frajola, vocalista do Terno Elétrico, 40 anos, a atitude combativa está no DNA do rock ceilandense. “Talvez o diferencial esteja aí”, observa. Ainda assim, aprendeu a conviver com o estranhamento provocado sempre que o grupo afirma a origem. “Quando falávamos que somos uma banda de rock de Ceilândia, as pessoas nos olhavam um pouco diferente. Na nossa música, tentamos mostrar a cidade, mas sem cair no panfletário”, resume. Uma das canções do grupo, Avenida H. Prates, narra as impressões de um personagem que atravessa a principal via da região. “A cidade produz rock de qualidade. O que falta é se espalhar, promover intercâmbio, sem bairrismo”, aposta.

De forma independente e com teimosia, o circuito roqueiro se espalha na programação de dois bares (Garagem Cultural e Cio das Artes) e em festivais como o já tradicional Ferrock, o Rock na Veia e o Rock na Rua. “O rock é uma bandeira, um instrumento forte, socialmente falando”, comenta o produtor do evento, Ari de Barros, em cena do documentário. Com cartazes que combinam Woodstock com Che Guevara, o Ferrock prega a “revolução do rock” desde 1986. É inspiração para promessas como o Bonecas de Trapo, trio de punk e grunge formado só por meninas, em atividade desde 2004. “Para uma banda de rock de Ceilândia, é difícil até receber pagamento. Quem toca hip-hop e forró ganha cachê. Para o rock, nada. Mas queremos crescer”, diz a vocalista Deydi. O barulho, pelo visto, não vai cessar.


Produto interno bruto


Conheça algumas bandas que estão no documentário Rock Ceilândia

Os Maltrapilhos

» Sob influência do punk, a banda combina o peso do gênero com uma artilharia de versos indignados. “Nutridos pela revolta e manifestados pelo ódio”, como avisam no MySpace, eles têm dois discos gravados: Desemprego e desespero, de 2006, e Descaso, de 2008. Ouça em www.myspace.com/osmaltrapilhos.

Terno Elétrico

» Com doses generosas de blues e rock ‘n’ roll, o quinteto Terno Elétrico ligou a tomada em 1992 — mas só lançou o primeiro disco este ano. “O rock sempre teve força em Ceilândia. Mas muitas bandas pararam por não verem um caminho”, comenta o vocalista João Frajola. Ouça em www.myspace.com/ternoeletrico.

Bonecas de Trapo

» O nome veio da música Rag doll, do Aerosmith, mas a banda inspira-se principalmente na fúria grunge de Hole, L7 e Nirvana. Com boa experiência de palco, Deydi, Cilene e Raiane arrepiaram marmanjos no Ferrock e pelo 1º Festival Nacional de Punk Feminino (em Goiânia, em 2006). No momento, gravam músicas em estúdio caseiro. Ouça em www.myspace.com/bonecasdetrapo.

Atritus

»A batida punk pulsa violentamente no som da banda — mas o tempero é bem-humorado. Formado no começo de 2004. Os “cinco loucos” escrevem versos que vão do protesto à esculhambação. Invadem a internet muita “cachaça, mulher e rock ‘n’ roll”. Ouça em www.myspace.com/atritus.

Vitalógica

»Em faixas como A volta e Conspiração, o quarteto usa riffs de hard rock para embalar versos que mostram influência de rock dos anos 1980. A banda tem no currículo participação em cooperativa de rock e em projetos de música em escolas. Ouça em www.myspace.com/bandavitalogica.

 

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