RENATO RUSSO REVOLUCIONÁRIO (1992)

RENATO RUSSO REVOLUCIONÁRIO
Publicado na Revista Nossa, 1992 (documento fotocopiado)

Reato com Renato

Nota introdutória

Sei lá parece piração, mas Renato Russo sempre alavancou a audiência do site dopropriobol$o e ajudou a promover o livro 10.000 dias de rock. Nesta semana articulei a união de um artigo escrito pela revista NOSSA intitulado “RENATO RUSSO REVOLUCIONÁRIO” com o poema inédito LEME/LEBLON acho que será a primeira vez que o poema será publicado na íntegra, nunca uma ideia original antes.... A matéria da revista NOSSA a qual somente possuo xerox, me foi passada pelo Guilmar, Assessor de imprensa no Governo do Distrito Federal anos atrás. Ele estudou com Renato Russo no CEUB e gentilmente me emprestou o livrinho mimeografado com o poema. Eis duas fotos dos Poetas do CEUB em algum dia de 1978! O pontapé foi dado pelos meus filhos que estão ensaiando adivinha quem?

 
OPINIÃO

Por Byron de Quevedo

Entre 1978 e o início dos anos 80 Brasília, e mais particularmente o CEUB (atual Uniceub), viram surgir uma nova safra de agitadores culturais: músicos, poetas, atores, artistas plásticos, cantores, escritores etc, com linguagens nada formal e muito “mau-comportadas” para aqueles tempos, eram os chamados Poetas do CEUB. Dentre estes estudantes de jornalismo, um deles veio a ser; agora, reconhecido como a maior revelação do rock nacional de todos os tempos: Renato Manfredini Júnior – o Renato Russo. Recentemente a crítica especializada já o coloca como um dos grandes letristas do século, alado de nomes como Bob Dylan, George e Ira Gershwin, Louis Amstrong, Paul Simon, John Lennon e Paul McCartney e outros iluminados. Até aí nada de novo, o que pouco se sabe é como nasceram estas canções que parecem ter um pacto com a eternidade, pois continuam a fazer sucesso até hoje, seis anos após a sua morte. Menos se sabe ainda sobre o Renato revolucionário. Musicalmente falando, antes dele, uns poucos gênios, aprecem terem descoberto a fórmula certa para fazerem as suas obras transcender a morte física e ganhar maior dimensão humana a cada dia, além de continuar a vender milhões de CDs em vários países. Os que conviveram com ele, sabem que antes de tudo o Renato Russo era um revolucionário de verso em punho.

Parece que a adversidade trás o elemento mágico que falta. Louis Armstrong, o maior músico de blues e jazz de todos os tempos, foi visto revirando latas de lixo, em New York, em busca de comida, nos seus tempos mais difíceis; já George Gershwin sofreu também lá seus problemas, principalmente quando fazia suas investidas em temas políticos, num tempo de muitas discriminações contra negros, pobres e homossexuais nos Estados Unidos; e Renato Russo encontrou a sua adversidade enfrentando um regime militar sanguinário, em vigor há quase 30 anos no Brasil.

Sem dúvida, o nome Renato Russo não pode deixar de ser incluído na lista daqueles que lutaram em prol da liberdade de expressão em nosso país. Os Poetas do Ceub, em sua maioria, foram ficando pela estrada: uns casaram com suas musas e tiveram filhos, outros se acomodaram em seus empregos, alguns morreram cedo demais, outros nunca mais foram vistos na cidade, e outros até hoje não têm suas obras conhecidas nem reconhecidas; mas Renato não, sua arma eram seus versos – eles a sua aceitação popular estrondosa o escudaram dos porões da repressão... a ditadura dos militares passou... ele continuou. Mas os poetas do Ceub tiveram um mérito que não se pode negar, cada um deles contribuiu par ao amadurecimento próprio e do seu poeta maior; seja através dos calorosos debates; seja pela parceria nas produções artísticas; ou seja até, pela simples e bela amizade que compartilhavam durante os quatro anos que tiveram juntos na faculdade.

Já nos primeiros dias de aula do curso de jornalismo Renato mostrava toda a sua indignação com o autoritarismo dos detentores do poder. Naquela ocasião sabia-se que havia agentes dos órgãos oficiais de informação infiltrados entre os estudantes eram “os dedos duros”.

Renato não gostava de um determinado professor, talvez por identificá-lo com o perfil de um autêntico “dedo-duro” – o homem que fazia as denúncias sobre os desafetos do regime. E o clima entre ambos era sempre muito elétrico. Certo dia este professor teceu, em sala de aula, um comentário que caiu feito uma bomba na cabeça do Renato: “Agora vocês estão com vida feita, entraram na universidade e já pertencem a uma minoria privilegiada da população, o futuro de vocês está garantido. Vocês já pertencem a elite do país”.

E o Renato, trajando camiseta e calça brancas; e pro cima, um casacão verde e comprido da marinha americana, que ia quase até os eu calcanhar, cruzou os braços, colocou seus sapatos mocassim marrom sobre a mesa/cadeira da frente e gritou:

“Nós não temos futuro!”

E o professor constrangido fez uma pausa e continuou... “Mas como eu ia dizendo, se vocês não desperdiçarem a chance, no futuro...

E o Renato irado tornou a gritar, lá detrás:
“Nós não temos futuro!”

O professor tentou continuar a sua explanação, mas por mais duas vezes foi interrompido:

“Nós não temos futuro!”

“Cocotinhas e cocotos”, os atuais “Patricinhas e Patricinhos”, já existiam naquela época e por fim foram eles que mais protestavam: “Você fale em seu nome. Se você acha que não tem futuro, o quê que você está fazendo aqui, vai embora!!”. Parte da turma não entendia o que estava acontecendo e parte já se indignava, quando ele levantou-se e bradou contra o professor: “Nós não temos futuro por causa de ufanistas como você. Somos filhos sem pátria e sem religião. Vocês não ensinaram só proibiram. Somos e seremos sempre ninguém, nossa coragem foi roubada por sua geração hipócrita. De nós nada se pode esperar: somos a geração Coca-cola. O que vocês esperam de nós após nos ter transformado num bando de cagões. Conversa cara!!!”

Em meio ao tumulto generalizado na sala de aula, respondeu o professor acuado: “Cara, me esqueça, esqueça a minha geração. Nós já estamos passando. Agora é a vez de vocês. Construa o seu próprio tempo. Não tenha medo, futuro está aí pra ser feito, você ainda é tão jovem e falando com tanto pessimismo. Você tem todo tempo do mundo... muito tempo... Você pode ser o que quiser!!”

Quando os Poetas do Ceub reuniram-se para selecionar as poesias para o livro Sinal – Agregado Poético, foi que começamos a desconfiar que “o cara era uma espécie de gênio, pois aquele tumulto em sala de aula havia sido transformado, por Renato, em belas poesias. Pouco tempo depois ouvimos, em fitas cassetes, que aquelas poesias haviam se transformado em canções. Aí nós tivemos certeza: ‘o cara era mesmo um gênio!’”.

“Pra ele... nada foi tempo perdido...”

Maiores detalhes sobre

“Os Poetas do CEUB”, no site www.byrondequevedo.mus.br 

 
 Fotos de Divina Maria Rodrigues
 
 
 "Renato Russo (Renato Manfredini Junior) Renato parecia carregar séculos de vida sobre os seus ombros, e esta vivência era traduzida rapidamente em belos versos. Este poeta iluminado ajudou-nos muito: fez a trilha sonora de um dos nossos filmes, foi ator em nossas peças e contribuiu com sua poesia para o nosso livro Sinal - Agregado Poético. Serei sempre grato pelos anos que compartilhamos os mesmos ideais". (Byron de Quevedo)

 

Leme/Leblon (para Eduardo e Felipe)

(I)

Pelas vielas que só são vielas por causa do cheiro ocre
/óleo de soja dos pastéis que 
animais devoram
em troca de menos uma 
verde do bolso.
Ele descia
Ilhado e flutuante
metal cromado, lona e fuga nos ombros
O peso da asa triângulo grego
O peso das escadas sujeira zona sul 
O peso da água em pouca quantidade
Fria 
num dia de verão do chuveiro de azulejos cinzas
O peso dos livros
E da consciência paterna
E o zelo materno 
O pesadelo vocal na hora do almoço (filet burguês
com arroz mineiro)
Todo dia todo 
dia todo dia todo dia todo dia todo
Rio de Janeiro 
Uma pensão um quarto uma cama um armário
Discos livros coisas
Sempre drogado assistindo os pontos que passam à
velocidade
De quem sabe quantos anos luz 
Na televisão sem a imagem falsa das quatro horas
da manhã
Só a luz boa dos pontos 
que voam em preto e branco
E o livro de 
Química no colo
E o livro de Hesse na mente 
E a morte (talvez) no coração. 

II

Distante muito da cidade suja
Subida dura mas o leve peso
Os pés doendo com as marcas simples
Do tênis velho na ladeira clara 

 
 
LEME/LEBLON (Como foi impresso)
 

 

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