QUANDO A SORTE TE SOLTA MARCO ANTÔNIO ARAÚJO NA NOITE! (1986)

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quando a sorte te solta Marco Antônio Araújo na noite!
 
Ele nos dava a impressão essencialmente de ter muito mais para dar do que nós tivemos a oportunidade de receber.
 
"Esse Brasil tá um país muito gozado demais. Porque isto tenho falado em todos os lugares em que a gente toca. Sempre tem alguém desse gabarito, e que de repente o espaço para se tocar é pequeno demais. E acontece que muita gente acaba não conhecendo. Então, eu acho que o maior sentimento a cultivar no Brasil hoje é o da curiosidade, porque as coisas óbvias estão estampadas por aí, pra todo mundo ver, até encher o saco... – e coisas como essa só se descobre se a gente for muito curioso –, então, é quando nós tentamos com esse sentimento da curiosidade que não perdemos coisas como essa. (Frase de Marco Antônio Araújo, em seguida à apresentação do violonista Marco Pereira.)
 
?"A única instituição profissional de Minas é a política. Para ela, não há limite de recursos", ironizava.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dono de um talento ímpar, o músico mineiro Marco Antônio Araújo era tratado pela mídia com o conhecido descrédito que dedicam a quem faz arte por amor. Ele não era ligado a nenhuma grande empresa, dessas que ditam o que é bom ou ruim para as pessoas. Seu talento pode ser comprovado nos cinco discos que lançou, com muito sacrifício, em esquema independente. Em sua alquimia musical, destacam-se as mais diversas influências. Sobretudo do rock dos anos 60 e 70, mas também e principalmente do barroco mineiro. As composições "Folk song" e "Abertura Nº 2" demonstram isso.
 
Quando comenta os seus trabalhos, a parca mídia musical brasileira geralmente cita as influências estelares do rock britânico no trabalho de Marco Antônio Araújo. Isso deve acontecer por causa da sua conhecida estadia na Inglaterra. E boa parte das influências apreciadas pelo músico mineiro e pelos críticos desfalcava o cenário no qual o compositor, diretor musical, violoncelista e guitarrista – com toques de violão ovation, folk e viola grávida –, com os condimentos do barroco mineiro e do rock, mas as suas inovadoras orquestrações, revolucionava o panorama musical instrumental feito no Brasil.
A simplicidade e conscicência artística, incrivelmente raras nos músicos e produtores musicais brasileiros, na atualidade, era a principal qualidade de Marco, que se manteve fiel a suas ideias musicais universais.
 
Além do amor a Pink Floyd, Jimmy Page, Jethro Tull, Marco Antônio Araújo curtia Beatles, Rolling Stones, tocava Verdi, Brahms e Beethoven na Orquestra, e também o mineiro José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita. Essas impressões vieram muitas vezes creditadas nos títulos das suas canções: "Floydiana", "Para Jimmy Page"...
 
Marco Antônio Araújo dividiu com Randy Rhoads, o mago americano do heavy metal, também precocemente desaparecido, a difícil operação de estender e redefinir as partituras, sonoridades e horizontes do rock. Essa reavaliação e reestruturação do rock com o erudito, proposta por eles, não atravessaria o meio da década. Os realizadores mais próximos de concretizar essa instigante alquimia desapareceram, e se levou algum tempo para alguém sacar que haviam completado suas participações.
 
Infelizmente, Araújo veio a falecer em janeiro de 1986, na primeira semana do ano, uma segunda-feira. O ano começou mais pobre musicalmente. Justo no momento em que ele começava a receber a atenção – e o respeito – ao seu trabalho
 
Voz do povo
 
Marco Antônio Penna Araújo nasceu a 28 de agosto de 1949, em Belo Horizonte, onde se criou. Ao final da década de 60, conquista fama de mau vizinho, por causa do rock ensurdecedor do seu grupo Voxpopulli, que lançou um compacto, em 68, com a música "Dia D".
“Voxpopulli tinha uma música aparentemente hermética, mas que, depois de ouvida com atenção, trazia retratos, reflexos. Vivíamos, depois de uma Revolução que fizeram em cima de nós (...) Já naquele tempo, sentia-se uma interrogação permanente, com a resposta aflorando, dentro do trabalho.” Escreveu Carlos Felipe.
Com o fim do Voxpopulli, Marco Antônio Araújo segue como músico em gravação do Som Imaginário. Nesse mesmo 1968, ele larga a faculdade em Belo Horizonte, sai da casa dos pais, abandona um emprego sólido, e troca os compêndios de economia pela guitarra... e uma passagem.
 
Imprevisível e atento, como bom virginiano, abandona as carreiras incipientes. Decidido a aprimorar-se no rock, parte para um exílio voluntário na capital inglesa.
De 1970 a 1972, é visto na imponente e barulhenta Oxford Street, no centro de Londres, arquejante, carregando pesados móveis para uma empresa transportadora. O salário ganho nesse ofício penoso é vertido sem demora na compra de ingressos para temporadas de rock, armadas na lendária sala de espetáculos do Albert Hall ou nos enfumaçados pubs e clubes da cidade. Economiza do estritamente necessário para alimentação e aluguel.
Na plateia, curte as piruetas de Robert Plant e Jimmy Page, do Led Zeppelin, os agudos de Ian Gillan, do Deep Purple, além das viagens do Pink Floyd, e dos delírios da formação clássica do Jethro Tull. Vislumbra assim imperdíveis oportunidades diariamente, até mesmo duas vezes no mesmo dia. Também convive com alguns brasileiros, que então compartilham politicamente o exílio cultural (Gilberto Gil, Ângela Ro Ro, Jorge Mautner, Mutantes, Neville D´Almeida, Rogério Sganzerla, Jards Macalé, Antônio Bivar, Caetano Veloso...).
 
Na volta ao Brasil, o rapaz de cabelos grandes e olhos profundos, de olhar às vezes triste, escolhe uma trilha pouco ortodoxa. Ao invés de montar uma banda de rock, resolve estudar a fundo a música erudita, na Escola Nacional de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá estuda teoria musical, composição e contraponto, e pratica exaustivamente violoncelo e violão clássico.
Discípulo e aluno de mestres como Esther Scliar, Lindembergue Cardoso, Marco Rocha e Eugen Ranevisky, sua dedicação o conduz, com naturalidade, a ocupar uma vaga na Orquestra Sinfônica da Fundação Clóvis Salgado, de Minas Gerais.
 
Em 1977, passa no concurso e atua por oito anos como violoncelista em Belo Horizonte, uma atividade que lhe exigia três horas diárias de ensaio e frequentes apresentações. Ainda nesse ano, inaugura o projeto Maravilhosos Músicos Mineiros.
 
Com os longos cabelos levemente afastados do rosto, e no olhar um brilho de luta e vitória a acompanhar o semblante visionário, ele delineava as batalhas e preparava os passos. Estrutura a primeira grande vitória para a música instrumental brasileira. A impressão é de ser ungido da Música, e predestinado ao sucesso. Seu trabalho musical está com a preocupação voltada para uma pegada própria, e que, em aparente contradição, não é propriamente sua, mas universal. Assim é a fórmula adotada. Ele quer que sua música seja entendida e amada. Ela é uma síntese de seu rigor consigo mesmo: “Sou perfeccionista, requintado, exigente, rigoroso, doido e lúcido, ambicioso, egoísta, consciente e generoso.”
 
Em 1981, aos 32 anos, lança o surpreendente Influências, um extraordinário disco de estreia, que rompe as barreiras das alfândegas culturais e regionais. Influências é o auspicioso marco inaugural da obra de Marco Antônio Araújo, e mesmo sem shows de lançamento fora de Minas, com uma resenha simples na revista Veja, ultrapassa a casa das dez mil cópias.
 
Estreia eclética
Okki de Sousa – Veja
 
Em apenas seis faixas instrumentais, destila com grande habilidade nas aventuras pelo rock, modinhas mineiras, música clássica, e até pela música renascentista inglesa. Na explosiva mistura, atinge estilo próprio e bem-acabado. Como na faixa-título, em que o maestro Jaques Morelembaum rege pequeno naipe de metais, ou na inspirada "Abertura n.º 2", na qual exibe notável senso de equilíbrio à frente de seu grupo Mantra, acima de tudo planta uma semente de inovação na musicalidade da raízes mineiras.
 
Quando a sorte te solta um cisne na noite – ou o disco do cisne
 
Por ser pastoral, e conter "Floydiana", o disco assume um pressuposto de ser o disco "do cisne", em contraponto ao "da vaca".
Simplifica com grandiosidade as experiências pop e erudita do Cisne de Minas. Pra lá de cantochão. 'Floydiana', sem ser parecida com nada, lembra os belos momentos do conhecido Atom Heart Mother.
A competência é marcante nas execuções e arranjos (tão perfeitos ao vivo quanto em disco), compartilhados com os músicos do Grupo Mantra, que também atuavam com Marco na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Sobre a tessitura delicada, que nasce com o piano de Max Magalhães, surge crescente a base sutil do ovation e do violão folk, panorama ideal para uma trip de paisagens mineiras/universais, assopradas na flauta de Eduardo Delgado, no cello de Antônio Viola, na guitarra de Alexandre Araújo, na trompa "rosácea" de Sérgio Gomes. Tudo é metronomicamente ritmado pelo baixo de Ivan Corrêa e pela bateria de Mário Castelo.
Há picos de culminância estética difíceis de definir e a calmaria dourada de sóis e rios, em "Alegria" e "Adágio", esta canção de câmara, feita para um amigo, ou para muitos, "Quando a sorte te solta um cisne na noite". Até a lúdica imprevisibilidade da poderosa eclosão pop/rock da faixa "Pop Music". É um cisne, enfim, que não passa em branco.
“A síntese ideal da música de nosso tempo, com lampejos do mais saudável rock mesclado ao conhecimento da Música como fato universalizante, em linguagem compreensiva a todos e para o sempre. Isso tudo está clara e fluidicamente apresentado neste segundo álbum” – Paulo Klein comenta Quando a sorte te solta um cisne na noite, na revista Somtrês.
 
 
 
Suas apresentações: de embrião ao nascimento
 
 
Marco Antônio Araújo toca violão ovation e violoncelo, acompanhado por Eduardo Delgado, flauta, Antônio Viola, violoncelo, Alexandre Araújo (seu irmão), guitarra, José Marcos Teixeira, teclados, Ivan Corrêa, baixo, e Lincon Sheib, bateria. Eles interpretaram músicas que integram seus três discos, e que incluem temas que somente seriam lançados no seu quinto disco, Lucas. Na primeira parte do programa, "Grave", "Folk song", "Influências", "Floydiana" e "Panorâmica". Na segunda, "Para Jimmy Page", "Caipira", "Lembranças" e "Lucas", todas do ainda inédito Lucas, e finaliza"Abertura Nº 2".
 
A celebração ao vivo era desarraigada, e acontecia o grupo impregnava as salas de concerto com varreduras polifônicas, e o mestre do ovation explanava alto as suas ideias, fincadas na oposição ao que estava estabelecido pelos ditames do comércio fonográfico, imposto pelo jogo da indústria cultural, essa mesma que bancou a glória e também o sepultamento precoce de tanta gente. Ele tinha naturalmente consciência do seu papel e das dificuldades para a glória efêmera, pois queria muito mais.
O primeiro dos cinquenta shows que o Marco Antônio Araújo Grupo realizou pelas capitais brasileiras foi em agosto de 1984, no Masp. Para mim, foi um ano de agonia para que o show Instrumental 85 chegasse à Capital Federal. Com a lotação esgotada nos três dias, teve a participação de músicos indianos num duelo raro de seus instrumentos com o violão de Alexandre Araújo.
Nos camarins, era impossível se aproximar para conversar. O ponto crítico do espetáculo era o bis. A estrutura e sequência das músicas não mudaram, o que mudou foi a interpretação, de redenção total dos músicos ao musical, que caminhavam na direção do belo horizonte... Testemunhei isso, e tive a felicidade de editar fitas cassetes, gravadas nos shows de São Paulo–1984, e Brasília–6 jun. / 1985. Acompanhávamos a turnê via tijolinhos nos jornais das outras capitais. Foi uma experiência familiar, uma vez que minha irmã e a minha namorada também foram comigo ao show. Foi absolutamente marcante, e de alguma forma não permitiu explodir de tristeza o rasgo nas nossas almas, pela rápida partida de Marco Antônio Araújo.
 
O Rock como um elemento
Entrevista de Marco Antônio Araújo a Irlam Rocha Lima, do Correio Braziliense, em 4 jun. / 1985
 
A exuberância de seu trabalho instrumental dispensa o explícito do verso, suas rimas estão nas cores dos timbres
 
Competência musical sobriamente inspirada, doce, criativa, fluindo sem afetações ou experimentalismos desnecessários, já exaustivamente percorridos.
Marco não esconde suas fissuras roqueiras, apesar de condimentar seu rock com elementos da fase áurea do barroco mineiro e da melhor tradição sinfônica. Sua competência é marcante nas execuções e arranjos, tão perfeitos ao vivo como em disco. Na atual olimpíada do banal, Marco Antônio Araújo cintila. Em primeiro lugar, porque ele é musico.
 
Em conversa com o jornalista Irlam Rocha Lima, no final da excursão, em uma sala da Vasp (que patrocinou a excursão, pelo menos as passagens), em meio ao estudo do plano de viagem, ele falou sobre sua carreira, influências e sua alma musical, que não encontra parâmetro entre o que se produz musicalmente no Brasil atual. Expôs a dimensão do trabalho de Marco mostrado nas suas apresentações em Brasília, na excursão do show Instrumental 85.
 
Marco Antônio, como você situa seu trabalho nos estreitos limites entre o erudito e o popular?
Eu, como músico profissional, não faço nenhuma distinção entre o erudito e o popular. Você está falando que a relação é estreita. Eu acho que ela é íntima. A única coisa que conta dentro de um trabalho artístico de altíssimo e de baixíssimo nível, como existe também no campo erudito, é que uma coisa é interligada com a outra, pois todas as tendências vêm de uma mesma raiz popular anônima, a raiz popular do folclore. São tratamentos diferenciados dados aos temas folclóricos do sentimento da região, do povo, da Nação, e por aí afora. Então eu acho que a única coisa que existe entre o erudito e o popular, se a gente puder separar essas duas áreas, é uma diferença de acabamento.
Como é que se processa sua alquimia? Com informações, com as influências que você recebeu dos Beatles, do barroco mineiro e da música clássica, o que é que acaba prevalecendo?
Além de não ter preocupação com prevalência desse ou daquele elemento, o meu trabalho não é a estilização de nenhum estilo. Não é a estilização de nenhuma tendência. Eu não procuro por exemplo fazer uma coisa parecida com o que os Beatles fizeram, nem com o barroco mineiro, nem com qualquer outro tipo de tendência. Porque eu acho o seguinte: o artista é um filho das vivências dele. Eu tive essas vivências, e elas são fortes. Sou fortemente influenciado pela época pop. Eu cito os Beatles, porque eles foram os geradores do movimento pop. Cito de vez em quando o barroco mineiro, porque sou de Minas Gerais, e Minas é um Estado muito musical, cheio de folclore, e o barroco mineiro é um tratamento erudito dado aos temas do folclore mineiro. Então, o meu trabalho é simplesmente uma consequência dessa minha vivência musical, de mineiro ambientado em Minas Gerais, e de uma influência pop decorrente de minha geração.
É difícil ser músico em Minas, sem pertencer ao Clube de Esquina, a "turma do Milton Nascimento"?
Eu não me sujeito a nenhum tipo de dependência. E acho que a pessoa tem que se garantir pela sua competência, pela sua qualidade, pela sua proposta. Tem que medir seu tamanho a partir de si próprio, e finalmente, e vitoriosamente, sem estar apoiado a grupos por interesses, ou apadrinhado por ninguém. Acho isso muito importante.
Numa época em que é muito forte a tendência para absorção do chamado som descartável, você vê muita dificuldade para colocar e veicular esse tipo de música que faz, que é uma coisa muito mais elaborada?
Quanto mais material descartável tiver, maior vai ser o meu espaço. Porque a saturação de um certo esquema do material descartável está acontecendo. Então, quanto mais saturado ficar o público, por isso, ele vai acabar procurando outras opções, e aí está o meu campo de trabalho.
Apesar de possuir quatro LPs gravados, você continua sendo um artista independente. Isso é uma opção sua, ou as gravadoras é que não se entusiasmam muito pelo tipo de música que você faz?
Veja bem: eu procuro condições para que meu trabalho aconteça num nível que acho que ele mereça. Qualquer esquema que fosse montado por trás do meu trabalho, e que me desse confiança, essa segurança e conforto, eu abraçaria, numa boa. Eu não tenho preconceito contra gravadora. Não tenho preconceito contra nada, desde que eu tenha condição de trabalhar. Em 1980, por exemplo, antes de gravar meu primeiro disco, tentei fazer meu trabalho através de uma gravadora, mas ele foi taxado burramente de música clássica. Argumentaram também na época que música instrumental não vendia, que o público não tinha sensibilidade para isso. Esse tipo de argumento furado foi o que ouvi por aí afora. Então, hoje, quando já vou lançar meu quinto LP, eu criei um sistema para que isso fosse possível. E esse sistema, atualmente, está muito sólido. Tanto que estou fazendo uma turnê nacional para o lançamento de um disco de música instrumental-independente, no Brasil. Posso provar com isso que meu sistema, que o meu ponto de vista está certo, e que está acontecendo. Pra eu entrar em outro esquema agora, tipo uma gravadora, seria um trabalho com um preço muito alto, porque são dez anos de estrada. Isso ninguém dá de graça pra ninguém, nem faz tratados com gravadoras da maneira que elas querem. Por isso, acho completamente impossível minha integração a uma gravadora, pura e simplesmente.
Mesmo com toda essa bagagem, com esses quatro discos lançados, você, seu trabalho, até há pouco, estava restrito a Minas Gerais. Nos outros estados, a não ser os iniciados, pouca gente conhece sua música. Agora, com o show Instrumental 85, você faz uma excursão de Porto Alegre a Fortaleza. Isso é uma grande ousadia, concorda?
Bom, eu acho que a força motriz de qualquer evolução é a ousadia. Não uma ousadia sem fundamento, uma porralouquice qualquer, mas uma coisa bem-pensada, bem racional. Eu sou uma pessoa muito racional. Nunca dou um passo maior que minhas pernas. Então, como você disse, o meu trabalho é muito conhecido em Minas. Mas acontece que eu já estava sem espaço em Minas para tocar. Já começava a virar repetição. Acho também que uma das motivações para a evolução é o sufoco: você chega num ponto em que tem que tomar uma atitude. E essa atitude só vem da necessidade. Eu senti a necessidade de abrir o meu campo de trabalho. O meu trabalho sustenta uma equipe enorme, que me cobra trabalho, e eu tenho que sobreviver disso, juntamente com outras pessoas. Então eu tenho que ser ousado, e sei que estou sendo ousado ao fazer essa excursão – com o imprescindível auxílio da Vasp, com o apoio de uma empresa igualmente ousada, que investe em música instrumental no Brasil. Esse trabalho estava restrito a Minas e São Paulo, mas agora pode ser ampliado por várias regiões brasileiras.
Com a chegada da "Nova República", você vislumbra melhores dias para a música, para as artes em geral, para a cultura no Brasil?
Eu torço para que isso aconteça, mas quero deixar claro uma coisa: nunca dependi do sistema anterior, e pretendo não depender desse novo para a sobrevivência do meu trabalho. Mas eu torço para que a situação seja muito melhor do que já foi, não só no campo artístico, mas principalmente no campo social. Acho que a criação do Ministério da Cultura deveria estar muito voltado para a preservação da cultura nacional, para a restauração da cultura, que está sendo comida pelas baratas nos museus. Eu estou falando isso não é figurativamente, não. Estou falando literalmente. Fiz uma pesquisa sobre música mineira para a Companhia Siderúrgica Mineira, com um contrato fechado para a realização de três discos, com músicas inéditas do barroco mineiro, e achei partituras no Museu de Mariana faltando várias notas. Essas notas foram comidas pelas baratas.
 
 
Lucas
 
 
 
Lucas está entre os cinco melhores discos do Brasil em 1985, uma espécie de continuidade sintética de toda uma vida. Na faixa "Lucas", a canção de ninar e o acalanto finalmente chegaram ao sintetizador, e vice-versa. Segundo o jornalista Carlos Felipe, “uma canção de ninar da era eletrônica”.
Inesquecível foi a abertura do show e coquetel de lançamento do disco Lucas, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, no dia 26 de novembro de 1985. Nesse dia, Marco Antônio Araújo lançou o seu quinto LP. Ele entrou no ambiente com Lucas, seu filho, mais a bailarina e professora de dança Déa, mãe também de Ana, nascida nesse mesmo ano. E com aquele jeito seu característico diz que aquele menino é uma das pessoas que mais ama na vida, e por isso tinha dedicado o show e o disco a ele.
Além de produzir os cinco discos de Marco Antônio Araújo, o selo independente Strawberry Fields (outra arrojo do músico) atuou como produtor, trouxe artistas a Belo Horizonte e produziu discos. Para a Belgo – Companhia Siderúrgica Mineira, o selo Strawberry Fields cumpriu dois LPs de um contrato que prévia três discos, com músicas inéditas do barroco mineiro. O LP Concerto Barroco Nº 1 saiu em 1984, e o Concerto Barroco Nº 2, em 1985. Durante a pesquisa, Marco Antônio Araújo encontrou partituras no Museu de Mariana, em que faltavam várias notas, pois foram comidas pelas traças.
Para o Banco do Brasil, Marco Antônio Araújo produziu o primeiro disco do Projeto Música da Inconfidência, que seria concluído em 1989, juntamente com o bicentenário da Inconfidência Mineira. Neste LP, foi apresentada uma obra inédita de Manoel Dias de Oliveira, músico pouco conhecido do barroco mineiro, que viveu no Vale do Rio das Mortes.
Como produtor de shows, o Strawberry Fields realizou um projeto que levou diversos músicos de Minas a dezenas de cidades do Estado. Foi um trabalho que abriu campo para experiências semelhantes, e que serviu para que os artistas da terra percebessem o espaço que tinham para conquistar.
 
Coda
 
No piano da casa de seu pai, com a tecla do lá mais grave queimada de cigarro, o principiante Marco Antônio Araújo passava horas a fio em cima das mesmas notas, sem saber que não teria chances de repor a tecla. Quando escrevia partituras, ou praticava violoncelo, ele ficava tão azedo que brigava até com crianças impertinentes, e pedia que encostassem a porta do quarto, ou então que usassem algodão nos ouvidos. Suas explosões temperamentais geralmente ocorriam quando ele cozinhava, e também quando passava horas temperando seus haddocks e bebendo vinho branco gelado, acompanhado de queijo.
A 3 de janeiro de 1986, recém-chegado de Nova Iorque, uma segunda-feira triste, depois do almoço, ele dá uma descansadinha... e deixa de retornar algumas ligações. Daquela tarde, não acorda mais, pois o descanso transforma-se em agonia. No Prontocor, se ele escapasse da agonia, disseram, teria de viver o resto de seus dias preso numa cadeira de rodas. Assim, morre na quinta-feira (6 jan. / 1986), e seu enterro ocorre sete dias depois, outra segunda-feira amarga.
Seus últimos projetos: musicar as novas histórias do musical Chapeuzinho Vermelho, com letras de Fernando Limoeiro, cenários de Álvaro Apocalypse e grande elenco, com a participação de Carla Camurati. O espetáculo John Lennon Remember também estava nos projetos de Marco Antônio Araújo, para ser apresentado igualmente ao Instrumental 85, pelas 17 capitais brasileiras. Já estava com datas reservadas para o mês de dezembro de 1986, em Belo Horizonte.
 
Frases
 
"Eu adoro os Beatles, os curto desde os seus primeiros discos."
 
"Não existe artista ambientado com o palco. Você está ali no camarim, morrendo de rir, conversando. No palco, é outro papo. É uma coisa que eu não sei definir o que é; não é um lance assim de vaidade, do egocentrismo, de autoafirmação, não é nada disso. É uma coisa diferente que acontece, você fica esquisito, todo mundo esperando o que você faz, é um lance muito louco. Tem uma frase bonita demais de um filósofo hindu, que é uma coisa incrível. Ele fala que a maior forma de expressão que existe é o silêncio, porque do silêncio você pode esperar tudo."
 
Estado de Minas: Marco Antônio Araújo, como artista, você se sente um ser especial?
É um lance em que tenho pensado muito, ultimamente. A diferença entre um débil mental e um gênio é mínima. Porque o milagre de existir uma pessoa já está feito. O milagre de você existir já é tão incomensuravelmente maior do que uma pessoa pode fazer que esse tipo de questionamento fica ridículo. A possibilidade da pessoa é tão infinita, a partir do momento em que ela seja concebida e exista, que o questionamento do egocentrismo, da vaidade, não tem sentido. Porque se você pegar, por exemplo, o maior gênio que já existiu, e que é Beethoven, que morreu dizendo que nada sabia de música, que não sabia fazer contraponto, se quem mais soube falou que não sabia direito o que está fazendo, pode falar alguma coisa? Eu acho que essas proporções do sentimentalismo, do egocentrismo, da emoção, são muito variáveis, e dependem da personalidade e da proposta da pessoa. Se vestem Michael Jackson de prateado para ganhar milhões de dólares, não é que ele está fazendo isso, mas uma máquina é que está atrás disso. Então, esse lance de o artista fazer parte da personalidade da pessoa, se é uma pessoa simples ou complicada, como vivemos num sistema capitalista, as pessoas são induzidas a fazer desse jeito, ou a gravadora a manda embora, porque não sabe mais, e assim botam um robô qualquer no lugar dela. Mas a pessoa que tem uma proposta não vai abrir mão dela, porque senão ela vai ficar insatisfeita.
 
Discografia
 
• Influências – com as músicas "Influências", "Abertura nº 2", "Panorâmica", "Folk song". Esse é o disco debut, marcadamente original, assim como a personalidade de Marco.
• Quando a sorte te solta um cisne na noite – o "disco do Cisne". O título do LP já reverencia as suas influências, algo assim como Atom heart mother, do Pink Floyd. É o seu disco mais rock, com "Floydiana", "Adágio", "Pop music". Talvez também o mais conhecido dos seus cinco discos.
• Entre um silêncio e outro – O mais erudito de seus trabalhos, reconfortante. Traz uma linda capa e encarte, que desaparece nas prensagens posteriores. "Acho primoroso este disco, até pelo fato de, em alguns movimentos, se aproximar do clássico que o Marco Antônio sempre foi." (Nestor Santana, produtor)
• Animal Racional – A capa segue os padrões do disco, uma coletânea com novos arranjos para clássicos, algumas músicas anteriormente gravadas. Foi financiado pela Vasp, tem um texto do crítico Maurício Kubrusly, que inicia o reconhecimento devido ao grande músico.
• Concerto Barroco Nº 1
• Concerto Barroco Nº 2
• Projeto Música da Inconfidência
• Lucas – Rock e demais influências elevadas à perfeição. Como não viajar em "Lucas", música que leva o nome do seu filho? Ainda temos "Lembranças", e também a transcendental "Para Jimmy Page".
 
Barroco progressivo
Walter Sebastião – Estado de Minas, 23 nov. / 1999
 
"(...) Ainda hoje, existem trabalhos inéditos do músico. São eles: Fantasia, (uma sinfonia), Folhas noturnas e Quatro condições de um pássaro solitário, além de peças para violão e instrumentos de câmara. Trata-se de material que pode virar vídeos, songbooks, discos etc., mas para isso é necessário patrocínio. Até pela necessidade de que o trabalho seja realizado com a qualidade necessárias, que é a marca de Marco Antônio", avisa Alexandre Araújo, seu irmão.
 
Participações
 
Marco Antônio Araújo participa do primeiro LP do Som Imaginário, e também do Quando fui morto em Cuba, de Marcus Ribas.
 
Algumas trilhas sonoras produzidas por Marco Antônio Araújo
 
• Rudá, peça de José Wilker
• Cantares, espetáculo do grupo O Corpo
• John Lennon Remember, show campeão de público em toda a história do Palácio das Artes, o maior teatro mineiro.
Arranjador requintado, homenageou por diversas vezes os Beatles e os Rolling Stones, o que julgava ser uma “verdadeira música clássica”. Numa dessas homenagens, John Lennon Remember, sob a sua direção, teve a participação da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e do “Corpo de Baile" e "Coral da Fundação Clóvis Salgado".
 
 
Homenagens
 
Com o acróstico MAPA (Marco Antônio Penna Araújo), o grupo Uakti batiza o seu sexto álbum.
 
1985
 
22 jan. a 22 fev.
• Carlos Vergara organiza individual no Brazilian Centre Gallery, em Londres, onde expõe pinturas em grandes formatos. É codiretor, com Belisário França e Piero Mancini, do vídeo Carlos Vergara: uma pintura, que integra a Série RioArte Vídeo/Arte Contemporânea.
24 jan.
• "Eu não posso precisar nem o mês nem qual das passeatas foi filmada, não me lembro. Glauber queria fazer um filme sobre aquele momento, mas ainda não tinha um projeto ficcional. Fizemos apenas um registro documental. A repressão política e a falta de liberdade de expressão impediram a continuidade do projeto. Em fins de 1969, Glauber e eu saímos do país." (Affonso Beato)
Fevereiro
• "Tudo corria velozmente e, em fevereiro de 1985, entramos no estúdio para gravar o nosso quinto disco. Com a entrada do Pappo, o som ficou mais pesado, e como ele é um soberbo guitarrista, o som ficou como sempre sonháramos. Mas nosso sangue de roqueiro nos empurrava para o lado oposto do que se supõe que era o rock comercial do momento. Mais uma vez, dissemos foda-se, e em três dias gravamos três temas: 'Robot', 'Olho animal' e 'Mulher fácil'. O quarto tema, 'Deus devorador', foi composto e gravado no terceiro dia no estúdio, feito em um take." (Rolando Castello Jr.)
Março
• Dois anos depois, voltando do Rio de Janeiro, para fazer o show de lançamento do primeiro disco, no espetáculo Verão Cultural, onde dividia as apresentações com Cyda Moreira; Renato Russo foi o terceiro a chegar ao seu show, o primeiro fora o porteiro. A camiseta branca e sempre o casaco amarelo, arredio, incrivelmente branco, como um fantasma notívago.
Abril
• Fundação, a que começa, Ary Pára-raios – Editor de cultura
4 abr.
• Escola de Escândalo: uma banda que faz escândalo
10 abr.
• Tique-tique
Nervoso demais
(J. Caribé)
 
Não se enganem, o Kid da foto não é o Kid Gatilho, e nunca trabalhou em filme de bang-bang. Posso assegurar também que não faz parte dos quadros da polícia. Este, meus amigos, é o Kid do grupo musical Magazine, que esteve em Brasília apresentando-se no concerto Rock in Prima, festa promovida pelo Clube Primavera e produzida por este locutor que vos fala.
Vocês perguntarão, porque o Kid aqui neste espaço sem os seus companheiros de grupo? É o seguinte, este sarará de quase dois metros de altura não é só cantor e produtor de discos, ele é também um emérito espancador de crianças, como demonstrou na tarde de sábado, no restaurante do Kingstown Hotel, em Taguatinga. Usando os tradicionais óculos para espantar crianças, o Kid, depois de ouvir de um garoto de mais ou menos 4 anos o tal "Tique-tique nervoso", não ficou muito alegre, e gritou com o fedelho. Com jeito meio estranho, o Kid Porrada ouviu do garoto o seguinte: "Você parece gay." Isso foi o bastante para que Kid Safanão sentasse o cacete no garoto, até postá-lo na "lona". Marcão Adrenalina, Luizinho Tostes e muitas outras pessoas viram essa demonstração de selvageria, e tentaram reagir em defesa do garoto, mas o agressor partiu em retirada, refugiando-se em sua caverna.
Um aviso aos navegantes: "Quando contratarem o Magazine para um show em Brasília, é bom guardar as crianças em casa."
 
 
 
 
14 abr.
• Revitalização
 
 
22 abr.
• Sarney assume a Presidência
Maio
• A unidade é Bob Dylan
Agosto
• Vandré, poema de Reynaldo Jardim
21 a 28 ago.
• Cine Brasília. Mostra Glauber por Glauber, o fato cinematográfico do ano. No quarto aniversário da morte de Glauber Rocha, na abertura de sua retrospectiva mais completa, o presidente Sarney discursa em sua memória.
• É fundado por dona Lúcia Rocha o Tempo Glauber, que vem estimulando a realização de estudos, teses e livros sobre a obra de Glauber Rocha e o Cinema Novo. Também vem produzindo mostras, vídeos, exposições, e investindo na formação de profissionais.
23 set.
• Sarney, na abertura da Assembleia Geral da ONU, repete frase de Tancredo: "O Brasil não pagará a dívida externa com a fome do povo."
Outubro
• John Cage na 18ª Bienal de São Paulo
6 out.
• Domingo. Cage e Augusto de Campos se apresentaram no auditório do Museu de Arte Contemporânea, um encontro idealizado pela meio-soprano Ana Maria Kieffer (curadora do setor de música da Bienal) e pelo tenor alemão Theophil Maier, com auxílio de Caio Giarca nos meios visuais. Além da apresentação do Cage Campos, aconteceu também o "happening Cage", uma mostra sonora das obras do compositor, realizadas por vários grupos musicais, num total de 50 músicos espalhados pela Bienal, executadas por justaposição, o que deu oportunidade aos ouvintes de apreciá-las individualmente ou acopladas a outras.
6 nov.
• McCartney acusa Lennon: ‘Era um porco intrigante’
20 nov.
• Viagem pesada
 
 
Dezembro
• Egum, no dizer africano Alma (Ary Pára-raios)
16 dez.
• Rock: fim do culto à droga
18 dez.
• Em liberdade – Justiça dá habeas corpus ao líder dos Titãs
 
Música
• Bobby Geldof consegue reunir o Status Quo de novo para tocar no Live Aid, o que eles fizeram com grande alegria. A recepção à banda foi magnífica, e a volta era inevitável. Contudo, Rossi e Lancaster não concordavam com mais nada, musicalmente falando. Parfitt tomou o partido de Rossi, e Alan saiu da banda.
• Michael Jackson compra o catálogo dos Beatles, por US$ 47 milhões. Ele deu um lance maior do que o próprio Paul McCartney, que nunca perdoou o que julgou traição.
• John Fogerty. Seu álbum solo Centerfield é primeiro lugar na parada dos Estados Unidos.
• Final do ano: Ronnie Cord é internado com cancêr no pulmão.
 
Artes
• Pedro Escoteguy participa da Retrospectiva Opinião 65, na Galeria de Arte do Banerj/RJ, com Estória e O Circo. Participa da mostra Caligrafias e Escrituras, promovida pelo MinC/Funarte, na Galeria Sergio Milliet e Espaço Alternativo.
 
Literatura
• Dez anos depois, Robert Crumb voltaria às páginas de uma revista brasileira, nas cinco edições de Porrada (com excelentes textos do ligado Franco de Rosa). Crumb era o carro-chefe, com seus quadrinhos clássicos.
• Atrapalho no trabalho reúne os dois livros de John Lennon In his own write e A Spaniard in the works, versão para o português pelo poeta Paulo Leminski, que adaptou a viagem e os trocadilhos lisérgicos à realidade brasileira. O mestre com certeza aprovaria. Não afeitos a esta viagem, podem ler no original, uma vez que a edição é bilíngue. Na página inicial, Leminski diz não ter traduzido, e sim transcriados os livros. Você pode encontrar uma cópia na banca do Sebo itinerante, que acompanha os festivais alternativos pelo Brasil. Cu$tava un$ 35 reai$. Editora: Brasiliense Págs: 236.
• É editado O Século do Cinema, de Glauber Rocha. Editora Alhambra. Rio, 1985.
• Acid dreams: the complete social history of LSD. Martin A. Lee & Bruce Shlain, Grove Press, New York.
Porém, os casos ligados ao LSD aumentaram continuamente, chegando a 517 nos últimos seis meses de 1985, último período sobre o qual foram divulgados números. As autoridades do INAD acham que essas cifras representam uma fração mínima do consumo atual de LSD, no país. Não se dispõe de números para comparar a popularidade da droga nos anos 60 com a de agora, porque o LSD foi reunido com várias outras drogas para uma análise estatística desse período.
• Jerry Garcia é preso por porte de cocaína e heroína. Ele é sentenciado a cumprir uma temporada numa clínica de reabilitação.
 
Filmes
• The Look, Andy Warhol como ator
• It's all true. Foi considerado um filme perdido, até que, em 1985, os negativos de Quatro homens e uma jangada foram descobertos num depósito da Paramount, e cuidadosamente recuperados, graças à colaboração de instituições de diversos países.
Com a ajuda de Richard Wilson, remanescente da equipe original de Orson Welles, o filme foi montado do modo supostamente mais próximo possível às intenções do diretor.
• Céu em transe (Ricardo Favilla). Aos 18 anos, registrou o funeral de Glauber em sua câmera Super-8. Durante a exibição, em 1985, na competição de filmes em Super-8, no Festival de Gramado: "Algumas pessoas ligadas ao Glauber souberam da projeção e quiseram apreendê-lo. Tiramos o curta de lá às pressas. Ele nunca mais foi exibido", conta Ricardo Favilla.
 
Obituário
• Julian Beck (1923–1985)
• Marc Chagall (1887, Vitebsk, Rússia – 1985, Saint-Paul-de-Vence, França)
Janeiro
• Morre o músico Anton Karas
10 out.
• Orson Welles morre de ataque cardíaco. Tinha 70 anos.
12 dez.
• Ian Stewart, roadie and pianist with the Stones from very beginning, has been suffering from acute respiratory problems for several days and is visiting a specialist in a West London clinic when he dies of a massive heart attack. He was 47. Stewart was the only person in their entourage who had remained unaffected by the wealth and fame. He still herded them on stage by yelling, "Come on, my little shower of shit. You're on!"
mapa_1984
Quando a sorte te solta Marco Antônio Araújo na noite!
Ele nos dava a impressão essencialmente de ter muito mais para dar do que nós tivemos a oportunidade de receber

1986

MARCO ANTÔNIO ARAÚJO (28/8/1949 – 06/01/1986) 

QUANDO A SORTE TE SOLTA MARCO ANTÔNIO ARAÚJO NA NOITE! 

Texto: Mário Pazcheco -  10.000 dias de rock
Revisor: Luís Eduardo


Ele nos dava a impressão essencialmente de ter muito mais para dar do que nós tivemos a oportunidade de receber.

“A única instituição profissional de Minas é a política. Para ela, não há limite de recursos”, ironizava.

Dono de um talento ímpar, o músico mineiro Marco Antônio Araújo era tratado pela mídia com o conhecido descrédito que dedicam a quem faz arte por amor. Ele não era ligado a nenhuma grande empresa, dessas que ditam o que é bom ou ruim para as pessoas. Seu talento pode ser comprovado nos cinco discos que lançou, com muito sacrifício, em esquema independente. Em sua alquimia musical, destacam-se as mais diversas influências. Sobretudo do rock dos anos 60 e 70, mas também e principalmente do barroco mineiro. As composições “Folk Song” e “Abertura N.º 2” demonstram isso. 

Quando comenta os seus trabalhos, a parca mídia musical brasileira geralmente cita as influências estelares do rock britânico no trabalho do compositor, diretor musical, violoncelista e guitarrista Marco Antônio Araújo. Isso deve acontecer por causa da sua conhecida estadia na Inglaterra. Naquele instante, boa parte das influências apreciadas pelo músico mineiro e pelos críticos desfalcava o cenário no qual  – os seus toques de violão ovation, folk e viola grávida –, com os condimentos do barroco mineiro e do rock, inovavam as orquestrações revolucionando o panorama musical instrumental feito no Brasil.

A simplicidade e consciência artística, incrivelmente raras nos músicos e produtores musicais brasileiros, na atualidade, era a principal qualidade de Marco, que se manteve fiel a suas ideias musicais universais. 

Além do amor a Pink Floyd, Jimmy Page, Jethro Tull, Marco Antônio Araújo curtia Beatles, Rolling Stones, tocava Verdi, Brahms e Beethoven na Orquestra, e também o mineiro José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita. Essas impressões vieram muitas vezes creditadas nos títulos das suas canções: “Floydiana”, “Para Jimmy Page”...

Marco Antônio Araújo dividiu com Randy Rhoads, o mago americano guitarrista de heavy metal, também precocemente desaparecido, a difícil operação de estender e redefinir as partituras, sonoridades e horizontes do rock. Essa reavaliação e reestruturação do rock com o erudito, proposta por eles, não atravessaria o meio da década. Os realizadores mais próximos de concretizar essa instigante alquimia desapareceram, e se levou algum tempo para alguém sacar que haviam completado suas participações.

Infelizmente, Araújo veio a falecer em janeiro de 1986, na primeira semana, numa segunda-feira. O ano começou mais pobre musicalmente. Justo no momento em que ele começava a receber a atenção – e o respeito – ao seu trabalho


Voz do povo
Marco Antônio Penna Araújo nasceu a 28 de agosto de 1949, em Belo Horizonte, onde se criou. Ao final da década de 60, conquista fama de mau vizinho, por causa do rock ensurdecedor do seu grupo Vox Populi, que lançou um compacto, em 68, com a música “Dia D”. “Vox Populi tinha uma música aparentemente hermética, mas que, depois de ouvida com atenção, trazia retratos, reflexos. Vivíamos, depois de uma Revolução Cultural que fizeram em cima de nós (...)  Já naquele tempo, sentia-se uma interrogação permanente, com a resposta aflorando, dentro do trabalho.” Escreveu Carlos Felipe. Com o fim do Vox Populi, Marco Antônio Araújo segue como músico em gravação do Som Imaginário. Nesse mesmo 1968, ele larga a faculdade em Belo Horizonte, sai da casa dos pais, abandona um emprego sólido, e troca os compêndios de economia pela guitarra... e uma passagem. 

Imprevisível e atento, como bom virginiano, abandona as carreiras incipientes. Decidido a aprimorar-se no rock, parte para um exílio voluntário na capital inglesa. 

De 1970 a 1972, é visto na imponente e barulhenta Oxford Street, no centro de Londres, arquejante, carregando pesados móveis para uma empresa transportadora. O salário ganho nesse ofício penoso é vertido sem demora na compra de ingressos para temporadas de rock, armadas na lendária sala de espetáculos do Albert Hall ou nos enfumaçados pubs e clubes da cidade. Economiza do estritamente necessário para alimentação e aluguel. 

Na plateia, curte as piruetas de Robert Plant e Jimmy Page, do Led Zeppelin, os agudos de Ian Gillan, do Deep Purple, além das viagens do Pink Floyd e dos delírios da formação clássica do Jethro Tull. Vislumbra assim imperdíveis oportunidades diariamente, até mesmo duas vezes no mesmo dia. Também convive com alguns brasileiros, que então compartilham politicamente o exílio cultural (Gilberto Gil, Ângela Ro Ro, Jorge Mautner, Mutantes, Neville D´Almeida, Rogério Sganzerla, Jards Macalé, Antônio Bivar, Caetano Veloso...).

Na volta ao Brasil, o rapaz de cabelos grandes e olhos profundos, de olhar às vezes triste, escolhe uma trilha pouco ortodoxa. Ao invés de montar uma banda de rock, resolve estudar a fundo a música erudita, na Escola Nacional de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá estuda teoria musical, composição e contraponto, e pratica exaustivamente violoncelo e violão clássico.

Discípulo e aluno de mestres como Esther Scliar (†), Lindembergue Cardoso, Marco Rocha e Eugen Ranevisky, sua dedicação o conduz, com naturalidade, a ocupar uma vaga na Orquestra Sinfônica da Fundação Clóvis Salgado, de Minas Gerais. 

Em 1977, passa no concurso e atua por oito anos como violoncelista em Belo Horizonte, uma atividade que lhe exigia três horas diárias de ensaio e frequentes apresentações. Ainda nesse ano, inaugura o projeto Maravilhosos Músicos Mineiros. 

Com os longos cabelos levemente afastados do rosto, e no olhar um brilho de luta e vitória a acompanhar o semblante visionário, ele delineava as batalhas e preparava os passos. Estrutura a primeira grande vitória para a música instrumental brasileira. A impressão é de ser ungido da Música, e predestinado ao sucesso. Seu trabalho musical está com a preocupação voltada para uma pegada própria, e que, em aparente contradição, não é propriamente sua, mas universal. Assim é a fórmula adotada. Ele quer que sua música seja entendida e amada. Ela é uma síntese de seu rigor consigo mesmo: “Sou perfeccionista, requintado, exigente, rigoroso, doido e lúcido, ambicioso, egoísta, consciente e generoso.”

Em 1981, aos 32 anos, lança o surpreendente Influências, uma extraordinária estreia, que rompe as barreiras das alfândegas culturais e regionais. Influências é o auspicioso marco inaugural da obra de Marco Antônio Araújo, e mesmo sem shows de lançamento fora de Minas, com uma referência simples na revista Veja, ultrapassa a casa das dez mil cópias. 

Estreia eclética
(por Okki de Sousa – Veja)

Em apenas seis faixas instrumentais, destila com grande habilidade nas aventuras pelo rock, modinhas mineiras, música clássica, e até pela música renascentista inglesa. Na explosiva mistura, atinge estilo próprio e bem-acabado. Como na faixa-título, em que o maestro Jaques Morelembaum rege pequeno naipe de metais, ou na inspirada “Abertura N.º 2”, na qual exibe notável senso de equilíbrio à frente de seu grupo Mantra, acima de tudo planta uma semente de inovação na musicalidade da raízes mineiras. 

Bela combinação de fissura e influências
(por Paulo Klein – revista Somtrês)

“A síntese ideal da música de nosso tempo, com lampejos do mais saudável rock mesclado ao conhecimento da Música como fato universalizante, em linguagem compreensiva a todos e para o sempre. Isso tudo está clara e fluidicamente apresentado neste segundo álbum 

Quando a Sorte te Solta um Cisne na Noite simplifica com grandiosidade as experiências pop e erudita do ‘Cisne’ de Minas. Pra lá de cantochão. (...) ‘Floydiana’, sem ser parecida com nada, lembra os belos momentos do conhecido Atom Heart Mother.

“A competência é marcante nas execuções e arranjos (tão perfeitos ao vivo quanto em disco), compartilhados com os músicos do Grupo Mantra, que também atuavam com Marco na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. (...)

“Sobre a tessitura delicada, que nasce com o piano de Max Magalhães, surge crescente a base sutil do ovation e do violão folk, panorama ideal para uma trip de paisagens mineiras/universais, assopradas na flauta de Eduardo Delgado, no cello de Antônio Viola, na guitarra de Alexandre Araújo, na trompa ‘rosácea’ de Sérgio Gomes. Tudo é metronomicamente ritmado pelo baixo de Ivan Corrêa e pela bateria de Mário Castelo. 

“Há picos de culminância estética difíceis de definir e a calmaria dourada de sóis e rios, em ‘Alegria’ e ‘Adágio’, esta canção de câmara, feita para um amigo, ou para muitos, ‘Quando a Sorte te Solta um Cisne Na noite’. Até a lúdica imprevisibilidade da poderosa eclosão pop/rock da faixa ‘Pop Music’. É um cisne, enfim, que não passa em branco.

Suas apresentações: de embrião ao nascimento 
Marco Antônio Araújo toca violão ovation e violoncelo, acompanhado por Eduardo Delgado, flauta, Antônio Viola, violoncelo, Alexandre Araújo (seu irmão), guitarra, José Marcos Teixeira, teclados, Ivan Corrêa, baixo, e Lincon Sheib, bateria. Eles interpretaram músicas que integram seus três discos, e que incluem temas que somente seriam lançados no seu quinto disco, Lucas. Na primeira parte do programa, “Grave”, “Folk Song”, “Influências”, “Floydiana” e “Panorâmica”. Na segunda, “Para Jimmy Page”, “Caipira”, “Lembranças” e “Lucas”, todas do ainda inédito Lucas, e finaliza com “Abertura N.º 2”. 

A celebração ao vivo era desarraigada, o grupo impregnava as salas de concerto com varreduras polifônicas. O mestre do ovation explanava alto as suas ideias, fincadas na oposição ao que estava estabelecido pelos ditames do comércio fonográfico, imposto pelo jogo da indústria cultural, que bancou a glória e também o sepultamento precoce de tanta gente. Ele tinha naturalmente consciência do seu papel e das dificuldades para a glória efêmera, pois queria muito mais. 

O primeiro dos cinquenta shows que o Marco Antônio Araújo Grupo realizou pelas capitais brasileiras foi em agosto de 1984, no Masp. Para mim, foi um ano de agonia para que o show Instrumental 85 chegasse à Capital Federal. Com a lotação esgotada nos três dias, teve a participação de músicos indianos num duelo raro de seus instrumentos com o violão de Alexandre Araújo.

Nos camarins, era impossível se aproximar para conversar. O ponto crítico do espetáculo era o bis. A estrutura e sequência das músicas não mudaram, o que mudou foi a interpretação, de redenção total dos músicos ao musical, que caminhavam na direção do belo horizonte... Testemunhei isso, e tive a felicidade de editar fitas cassetes dos shows de São Paulo-1984 e Brasília-6 jun. / 1985. Acompanhávamos a turnê via tijolinhos nos jornais das outras capitais. 
Foi uma experiência familiar, uma vez que minha irmã e a minha namorada também foram comigo ao show. Foi absolutamente marcante, e de alguma forma não permitiu explodir de tristeza o rasgo nas nossas almas, pela rápida partida de Marco Antônio Araújo.

O Rock como um elemento
Entrevista de Marco Antônio Araújo a Irlam Rocha Lima, do Correio Braziliense, em 4 jun. / 1985 

A exuberância de seu trabalho instrumental dispensa o explícito do verso, suas rimas estão nas cores dos timbres
Competência musical sobriamente inspirada, doce, criativa, fluindo sem afetações ou experimentalismos desnecessários, já exaustivamente percorridos

Em conversa com o jornalista Irlam Rocha Lima, no final da excursão, em uma sala da Vasp (que patrocinou a excursão, pelo menos as passagens), em meio ao estudo do plano de viagem, ele falou sobre sua carreira, influências e sua alma musical, que não encontra parâmetro entre o que se produz musicalmente no Brasil atual. Expôs a dimensão do trabalho de Marco mostrado nas suas apresentações em Brasília, na excursão do show Instrumental 85

Marco não esconde suas fissuras roqueiras, apesar de condimentar seu rock com elementos da fase áurea do barroco mineiro e da melhor tradição sinfônica. Sua competência é marcante nas execuções e arranjos, tão perfeitos ao vivo como em disco. Na atual olimpíada do banal, Marco Antônio Araújo cintila. Em primeiro lugar, porque ele é músico.

Marco Antônio, como você situa seu trabalho nos estreitos limites entre o erudito e o popular?

Eu, como músico profissional, não faço nenhuma distinção entre o erudito e o popular. Você está falando que a relação é estreita. Eu acho que ela é íntima. A única coisa que conta dentro de um trabalho artístico de altíssimo e de baixíssimo nível, como existe também no campo erudito, é que uma coisa é interligada com a outra, pois todas as tendências vêm de uma mesma raiz popular anônima, a raiz popular do folclore. São tratamentos diferenciados dados aos temas folclóricos do sentimento da região, do povo, da nação, e por aí afora. Então eu acho que a única coisa que existe entre o erudito e o popular, se a gente puder separar essas duas áreas, é uma diferença de acabamento.

Como é que se processa sua alquimia? Com informações, com as influências que você recebeu dos Beatles, do barroco mineiro e da música clássica, o que é que acaba prevalecendo?

Além de não ter preocupação com prevalência desse ou daquele elemento, o meu trabalho não é a estilização de nenhum estilo. Não é a estilização de nenhuma tendência. Eu não procuro por exemplo fazer uma coisa parecida com o que os Beatles fizeram, nem com o barroco mineiro, nem com qualquer outro tipo de tendência. Porque eu acho o seguinte: o artista é um filho das vivências dele. Eu tive essas vivências, e elas são fortes. Sou fortemente influenciado pela época pop. Eu cito os Beatles, porque eles foram os geradores do movimento pop. Cito de vez em quando o barroco mineiro, porque sou de Minas Gerais, e Minas é um Estado muito musical, cheio de folclore, e o barroco mineiro é um tratamento erudito dado aos temas do folclore mineiro. Então, o meu trabalho é simplesmente uma consequência dessa minha vivência musical, de mineiro ambientado em Minas Gerais, e de uma influência pop decorrente de minha geração.

É difícil ser músico em Minas, sem pertencer ao Clube de Esquina, a “turma do Milton Nascimento”?

Eu não me sujeito a nenhum tipo de dependência. E acho que a pessoa tem que se garantir pela sua competência, pela sua qualidade, pela sua proposta. Tem que medir seu tamanho a partir de si próprio, e finalmente, e vitoriosamente, sem estar apoiado a grupos por interesses, ou apadrinhado por ninguém. Acho isso muito importante.

Numa época em que é muito forte a tendência para absorção do chamado som descartável, você vê muita dificuldade para colocar e veicular esse tipo de música que faz, que é uma coisa muito mais elaborada?

Quanto mais material descartável tiver, maior vai ser o meu espaço. Porque a saturação de um certo esquema do material descartável está acontecendo. Então, quanto mais saturado ficar o público, por isso, ele vai acabar procurando outras opções, e aí está o meu campo de trabalho.

Apesar de possuir quatro LPs gravados, você continua sendo um artista independente. Isso é uma opção sua, ou as gravadoras é que não se entusiasmam muito pelo tipo de música que você faz?

Veja bem: eu procuro condições para que meu trabalho aconteça num nível que acho que ele mereça. Qualquer esquema que fosse montado por trás do meu trabalho, e que me desse confiança, essa segurança e conforto, eu abraçaria, numa boa. Eu não tenho preconceito contra gravadora. Não tenho preconceito contra nada, desde que eu tenha condição de trabalhar. Em 1980, por exemplo, antes de gravar meu primeiro disco, tentei fazer meu trabalho através de uma gravadora, mas ele foi taxado burramente de música clássica. Argumentaram também na época que música instrumental não vendia, que o público não tinha sensibilidade para isso. Esse tipo de argumento furado foi o que ouvi por aí afora. Então, hoje, quando já vou lançar meu quinto LP, eu criei um sistema para que isso fosse possível. E esse sistema, atualmente, está muito sólido. Tanto que estou fazendo uma turnê nacional para o lançamento de um disco de música instrumental-independente, no Brasil. Posso provar com isso que meu sistema, que o meu ponto de vista está certo, e que está acontecendo. Pra eu entrar em outro esquema agora, tipo uma gravadora, seria um trabalho com um preço muito alto, porque são dez anos de estrada. Isso ninguém dá de graça pra ninguém, nem faz tratados com gravadoras da maneira que elas querem. Por isso, acho completamente impossível minha integração a uma gravadora, pura e simplesmente.

Mesmo com toda essa bagagem, com esses quatro discos lançados, você, seu trabalho, até há pouco, estava restrito a Minas Gerais. Nos outros estados, a não ser os iniciados, pouca gente conhece sua música. Agora, com o show Instrumental 85, você faz uma excursão de Porto Alegre a Fortaleza. Isso é uma grande ousadia, concorda?

Bom, eu acho que a força motriz de qualquer evolução é a ousadia. Não uma ousadia sem fundamento, uma porralouquice qualquer, mas uma coisa bem-pensada, bem racional. Eu sou uma pessoa muito racional. Nunca dou um passo maior que minhas pernas. Então, como você disse, o meu trabalho é muito conhecido em Minas. Mas acontece que eu já estava sem espaço em Minas para tocar. Já começava a virar repetição. Acho também que uma das motivações para a evolução é o sufoco: você chega num ponto em que tem que tomar uma atitude. E essa atitude só vem da necessidade. Eu senti a necessidade de abrir o meu campo de trabalho. O meu trabalho sustenta uma equipe enorme, que me cobra trabalho, e eu tenho que sobreviver disso, juntamente com outras pessoas. Então, eu tenho que ser ousado, e sei que estou sendo ousado ao fazer essa excursão – com o imprescindível auxílio da Vasp, e com o apoio de uma empresa igualmente ousada, que investe em música instrumental no Brasil. Esse trabalho estava restrito a Minas e São Paulo, mas agora pode ser ampliado por várias regiões brasileiras.

Com a chegada da “Nova República”, você vislumbra melhores dias para a música, para as artes em geral, para a cultura no Brasil?

Eu torço para que isso aconteça, mas quero deixar claro uma coisa: nunca dependi do sistema anterior, e pretendo não depender desse novo para a sobrevivência do meu trabalho. Mas eu torço para que a situação seja muito melhor do que já foi, não só no campo artístico, mas principalmente no campo social. Acho que a criação do Ministério da Cultura deveria estar muito voltado para a preservação da cultura nacional, para a restauração da cultura, que está sendo comida pelas baratas nos museus. Eu estou falando isso não é figurativamente, não. Estou falando literalmente. Fiz uma pesquisa sobre música mineira para a Companhia Siderúrgica Mineira, com um contrato fechado para a realização de três discos, com músicas inéditas do barroco mineiro, e achei partituras no Museu de Mariana faltando várias notas. Essas notas foram comidas pelas baratas.

Lucas

Lucas está entre os cinco melhores discos do Brasil em 1985, uma espécie de continuidade sintética de toda uma vida. Na faixa “Lucas”, a canção de ninar e o acalanto finalmente chegaram ao sintetizador, e vice-versa. Segundo o jornalista Carlos Felipe, “uma canção de ninar da era eletrônica”.

Inesquecível foi a abertura do show e coquetel de lançamento do disco Lucas, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, no dia 26 de novembro de 1985. 

Nesse dia, Marco Antônio Araújo lançou o seu quinto LP. Ele entrou no ambiente com Lucas, seu filho, mais a bailarina e professora de dança Déa, mãe também de Ana, nascida nesse mesmo ano. E com aquele jeito seu característico diz que aquele menino é uma das pessoas que mais ama na vida, e por isso tinha dedicado o show e o disco a ele.

Além de produzir os cinco discos de Marco Antônio Araújo, o selo independente Strawberry Fields (outra arrojo do músico) atuou como produtor, trouxe artistas a Belo Horizonte e produziu discos. Para a Belgo – Companhia Siderúrgica Mineira, o selo Strawberry Fields cumpriu dois LPs de um contrato que previa três discos, com músicas inéditas do barroco mineiro. O LP Concerto Barroco N.º 1 saiu em 1984, e o Concerto Barroco N.º 2, em 1985. Durante a pesquisa, Marco Antônio Araújo encontrou partituras no Museu de Mariana, em que faltavam várias notas, pois foram comidas pelas traças.

Para o Banco do Brasil, Marco Antônio Araújo produziu o primeiro disco do Projeto Música da Inconfidência, que seria concluído em 1989, juntamente com o bicentenário da Inconfidência Mineira. Neste LP, foi apresentada uma obra inédita de Manoel Dias de Oliveira, músico pouco conhecido do barroco mineiro, que viveu no Vale do Rio das Mortes. 

Como produtor de shows, o Strawberry Fields realizou um projeto que levou diversos músicos de Minas a dezenas de cidades do Estado. Foi um trabalho que abriu campo para experiências semelhantes, e que serviu para que os artistas da terra percebessem o espaço que tinham para conquistar.

Coda

No piano da casa de seu pai, com a tecla do lá mais grave queimada de cigarro, o principiante Marco Antônio Araújo passava horas a fio em cima das mesmas notas, sem saber que não teria chances de repor a tecla. Quando escrevia partituras, ou praticava violoncelo, ele ficava tão azedo que brigava até com crianças impertinentes, e pedia que encostassem a porta do quarto, ou então que usassem algodão nos ouvidos. Suas explosões temperamentais geralmente ocorriam quando ele cozinhava, e também quando passava horas temperando seus haddocks e bebendo vinho branco gelado, acompanhado de queijo. 

A 3 de janeiro de 1986, recém-chegado de Nova Iorque, uma segunda-feira triste, depois do almoço, ele dá uma descansadinha... e deixa de retornar algumas ligações. Daquela tarde, não acorda mais, pois o descanso transforma-se em agonia. No Prontocor, se ele escapasse da agonia, disseram, teria de viver o resto de seus dias preso numa cadeira de rodas. Assim, morre na quinta-feira (6 jan. / 1986), e seu enterro ocorre sete dias depois, outra segunda-feira amarga.

Seus últimos projetos: musicar as novas histórias do musical Chapeuzinho Vermelho, com letras de Fernando Limoeiro, cenários de Álvaro Apocalypse e grande elenco, com a participação de Carla Camurati. O espetáculo John Lennon Remember também estava nos projetos de Marco Antônio Araújo, para ser apresentado, igualmente ao Instrumental 85, por dezessete capitais brasileiras. Já estava com datas reservadas para o mês de dezembro de 1986, em Belo Horizonte.

Frases

“Eu adoro os Beatles, os curto desde os seus primeiros discos.”

“Não existe artista ambientado com o palco. Você está ali no camarim, morrendo de rir, conversando. No palco, é outro papo. É uma coisa que eu não sei definir o que é; não é um lance assim de vaidade, do egocentrismo, de autoafirmação, não é nada disso. É uma coisa diferente que acontece, você fica esquisito, todo mundo esperando o que você faz, é um lance muito louco. Tem uma frase bonita demais de um filósofo hindu, que é uma coisa incrível. Ele fala que a maior forma de expressão que existe é o silêncio, porque do silêncio você pode esperar tudo.”

Estado de Minas: Marco Antônio Araújo, como artista, você se sente um ser especial?

É um lance em que tenho pensado muito, ultimamente. A diferença entre um débil mental e um gênio é mínima. Porque o milagre de existir uma pessoa já está feito. O milagre de você existir já é tão incomensuravelmente maior do que uma pessoa pode fazer que esse tipo de questionamento fica ridículo. A possibilidade da pessoa é tão infinita, a partir do momento em que ela seja concebida e exista, que o questionamento do egocentrismo, da vaidade, não tem sentido. Porque se você pegar, por exemplo, o maior gênio que já existiu, e que é Beethoven, que morreu dizendo que nada sabia de música, que não sabia fazer contraponto, se quem mais soube falou que não sabia direito o que está fazendo, pode falar alguma coisa? Eu acho que essas proporções do sentimentalismo, do egocentrismo, da emoção, são muito variáveis, e dependem da personalidade e da proposta da pessoa. Se vestem Michael Jackson de prateado para ganhar milhões de dólares, não é que ele está fazendo isso, mas uma máquina é que está atrás disso. Então, esse lance de o artista fazer parte da personalidade da pessoa, se é uma pessoa simples ou complicada, como vivemos num sistema capitalista, as pessoas são induzidas a fazer desse jeito, ou a gravadora a manda embora, porque não sabe mais, e assim botam um robô qualquer no lugar dela. Mas a pessoa que tem uma proposta não vai abrir mão dela, porque senão ela vai ficar insatisfeita. 

Discografia

Influências – com as músicas “Influências”, “Abertura N.º 2”, “Panorâmica”, “Folk Song”. Esse é o disco debut, marcadamente original, assim como a personalidade de Marco.

Quando a Sorte Te Solta um Cisne na Noite – o “disco do cisne”. O título do LP já reverencia as suas influências, por ser pastoral, e conter “Floydiana”, o disco assume um pressuposto de ser o “disco do cisne”, em contraponto ao “da vaca”. Destacam-se as faixas “Adágio” e “Pop Music”.  É o seu disco mais rock e também o mais conhecido dos seus cinco discos.

Entre um Silêncio e Outro – o mais erudito de seus trabalhos, reconfortante. Traz uma linda capa e encarte, que desaparece nas prensagens posteriores. “Acho primoroso este disco, até pelo fato de, em alguns movimentos, se aproximar do clássico, que o Marco Antônio sempre foi.” (Nestor Santana, produtor)

Animal Racional – A capa segue os padrões do disco, uma coletânea com novos arranjos para clássicos, algumas músicas anteriormente gravadas. Foi financiado pela Vasp, tem um texto do crítico Maurício Kubrusly, que inicia o reconhecimento devido ao grande músico. 

Concerto Barroco N.º 1.

Concerto Barroco N.º 2 .

Projeto Música da Inconfidência.

Lucas - Rock e demais influências elevadas à perfeição. Como não viajar em “Lucas”, música que leva o nome do seu filho? Ainda temos “Lembranças”, e também a transcendental “Para Jimmy Page”. 


Barroco progressivo
(por Walter Sebastião) – Estado de Minas, 23 nov. / 1999 

“(...) Ainda hoje, existem trabalhos inéditos do músico. São eles: Fantasia, (uma sinfonia), Folhas Noturnas e Quatro Condições de Um Pássaro Solitário, além de peças para violão e instrumentos de câmara. Trata-se de material que pode virar vídeos, songbooks, discos etc., mas para isso é necessário patrocínio. Até pela necessidade de que o trabalho seja realizado com a qualidade necessária, que é a marca de Marco Antônio”, avisa Alexandre Araújo, seu irmão.

Participações

Marco Antônio Araújo participa do primeiro LP do Som Imaginário, e também do Quando Fui Morto em Cuba, de Marcus Ribas.

Algumas trilhas sonoras produzidas por Marco Antônio Araújo

Rudá, peça de José Wilker. 

Cantares, espetáculo do grupo O Corpo. 

John Lennon Remember, show campeão de público em toda a história do Palácio das Artes, o maior teatro mineiro. Arranjador requintado, homenageou por diversas vezes os Beatles e os Rolling Stones, o que julgava ser uma “verdadeira música clássica”. Numa dessas homenagens, John Lennon Remember, sob a sua direção, teve a participação da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e do Corpo de Baile e Coral da Fundação Clóvis Salgado. 

 

papel de parede

 Homenagens

Com o acróstico MAPA (Marco Antônio Penna Araújo), o grupo Uakti batiza o seu sexto álbum.

 86 BLUES

On this day in 1986, Stevie Ray Vaughan & Double Trouble kicked off a 149-date North American and European tour at the Towson Center in Towson, Maryland....

Were you lucky enough to see SRV live? Foto: LickLibrary

1986: MIL NOVECENTOS E OITENTA E SEIS

Em Brasília, ocorrem manifestações de protesto, como o Badernaço.

Março

O produtor José Accioly, da gravadora Top Tape, manda um telegrama para o Serguei, só que ninguém sabia ao certo o endereço do cantor. E mais uma vez o prometido e aguardado Serguei Sings Joplin ficou nas expectativas.

11 mar.

Brasília. No Teatro Galpãozinho, na mostra Glauber Vivo, promovida pelo Cineclube Glauber Rocha, da Biblioteca do INL, é exibido Terra em Transe.

1986z

20 abril

23 abr.

Festival de Brasília, Alvorada Segundo Krysto participa da mostra competitiva de vídeo e tevê.

86 maio

Junho

Flávio de Carvalho, O Homem Que Incomoda

10 jun.

Sunab investiga sumiço da carne; 30% dos açougues de SP estão fechados devido à escassez.

86 11 junho

11 jun.

Essa foto da Marielle foi feita perto da quitinete dela, na Asa Norte, naquelas passarelas mal cheirosas e que faziam a alegria dos viciados e prostitutas... Bem, mas isso já é outra história (Félix Amorim)

Julho

Mistura de suíngues. Álbum de Sérgio Dias mescla jazz com música instrumental brasileira.

7 jul.

O rolling stone Keith Richards produz, até o dia 9, uma versão de “Jumpin’ Jack Flash”, com Aretha Franklin; a música foi gravada no Detroit’s United Sound Studios para o filme Jumping Jack Flash, estrelado por Whoopi Goldberg; Keith e Ron Wood fazem pontas no filme.

3 agosto

Renato Russo: Um tumultuado poeta do rock

19 ago.

Rimbaud: Um mito e sua obra

Setembro

Toda a excursão de Yoko Ono pela América do Sul é cancelada. No Brasil, ela tocaria no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte.

11 set.

Entrevista de Paul McCartney a Kurt Loder, da Rolling Stone
“Havia uma época em que eu era o avant-garde dos Beatles – mais ou menos no Sgt. Pepper. O LP foi basicamente minha influência. Foi minha a ideia de fazermos de conta que éramos outro grupo. John vivia com a mulher e o filho em Weybridge, e eu era o solteiro do grupo – morava sozinho em Londres, ligadíssimo no que estava se passando. Foi um tempo muito rico. Costumava fazer filmes de oito minutos e os projetava quadro a quadro – flick, flick, flick –, então duravam uma hora... quando deveria ser no máximo dez minutos. Lembro-me de ter mostrado os filmes para Keith Richards e Antonioni – ele estava em Londres, pois filmava Blow Up. Foram noitadas boas. Introduzi John a muitas das coisas que estavam acontecendo.
Na verdade, muitas pessoas não sabem, mas Yoko veio a minha casa antes de ter conhecido John. Foi para um lance de caridade – um acontecimento meio avant-garde, alguma coisa a ver com John Cage, ou algo assim –, e ela queria letras e manuscritos. É horrível, mas eu não lhe dei nenhuma de minhas letras – egoísmo, sei lá. Mas eu lhe disse: ‘Tem um amigo meu que talvez possa lhe ajudar. Meu camarada, John.’”

Outubro

Tabloide, Leia Especial.

86 outubro

12 out.

Antes de nos chamarmos Ferrock, isso em 12 out. / 1986, já fazíamos atividades no quadradão do P Norte. Mas só com som mecânico, até então: um velho e bom aparelho 3 em 1, com umas maravilhosas caixinhas.

86 comicio

Comício PT Praça da Sé nov 1986 - Foto: João Francisco Benedan

8 novembro

• Neal Cassady: O herói de Kerouac

12 nov.


Caio Fernando Abreu: Sexo mais ou menos?

18 nov.

Cine Brasília, estreia nacional do documentário No Tempo de Glauber, promovida pelo então Partido Comunista Brasileiro. Aconteceu por causa dos esforços do cineasta Vladimir Carvalho, amigo de Roque Araújo Assis, que dirigiu o filme e o cedeu por especial atenção ao autor de O País de São Saruê.

25 nov.

Rio de Janeiro, livro Ideário de Glauber Rocha, Philobiblion. Organizado por Sidney Rezende, abre espaço para que os filmes de Glauber cheguem à telinha.

29 nov.

Em 29 de novembro de 1986, 10 anos depois da morte de Zuzu Angel, o jornalista José Maurício Vidal Gomes, amigo dela de longa data, publicou no Estado de Minas a reportagem O urro de uma leoa em busca do filho. Ele escreveu: "Quantas vezes ouvi este grito, onde quer que estivesse ao lado de Zuzu: ‘Tudo o que quero é meu filho. Já que ele está morto, quero o seu corpo, quero enterrar com minhas mãos o filho que saiu de minhas entranhas (…) Para uma mãe, é pedir muito?’”.
 
Música

Chuck Berry e Johnnie Johnson se separaram em 1973, mas se reencontram em 1986, no concerto que marcou o 60.º aniversário de Berry, em St. Louis.
Registro no documentário de Taylor Hackford Hail! Hail! Rock’n’Roll.

• Em cinquenta anos de carreira, o músico Fats Domino natural de Nova Orleans ultrapassou a marca dos 65 milhões de discos vendidos. Além de ter sido um dos primeiros a entrar na Rock and Roll Hall of Fame, em 1986, no ano seguinte conquistou um Grammy Lifetime Achievement Award.

 O single “California Dreamin’”, regravado pelos Beach Boys, ocupa um   honroso 11.º lugar na parada de Adult Contemporary Singles, da revista Billboard.

 John Fogerty, depois de acusado de plagiar a si mesmo, respondeu com o picante álbum Eye of a Zombie.

6-7-8 e 9 março

Verão Funarte 86. Show de Itamar Assumpção na Funarte, em Brasília! Abertura: Akneton.

• Itamar Assumpção lança Isso Não Vai Ficar Assim pela gravadora paulistana Baratos Afins.

Dezembro

Após quase dez anos de anonimato e independência, o Marciano Sodomita conseguiu alguma projeção após o Festival de Bandas Eletrônicas, no extinto Circo-Show do Park Shopping. A postura anárquica, iconoclasta, o som sujo e simples, mais as letras corrosivas e sinceras, garantiram a participação da canção “História” no “disco fantasma” da WEA – Rock Brasília Explode Brasil
– coletânea com as dez bandas finalistas do festival, que, ao contrário do que sugeria o nome, jamais explodiu qualquer coisa.

6 dez.

86 dezembro2

O Estado de S. Paulo - 6 dez. / 1986 - foto: Juvenal Pereira  

86 mantas
CLASSE MUSICAL DE 1986

 

 

86 Andy
   "Segue agora foto inteira da litogravura original que comprei assinada e numerada por Andy Warhol em 1986. Edicao limitada de 5000 gravuras. Na foto da para vcs verem o numero da edicao. Essa lito e numero 1823. Tenho comprovante de autenticidade do Museum of Art, Carnegie Institute de Pittsburgh com o carimbo do museu na parte de tras do trabalho. Andy Warhol nasceu em Pittsburgh, Pennsylvania onde fica o Carnegie Institute de Pittsburgh

   Artes

   Uma das telas da série de pinturas de notas de um dólar é vendida num leilão em Nova York por 385 mil dólares. Foi o maior preço já alcançado por um trabalho de Andy Warhol em vida!
Seu último negócio foram as 47 pinturas de Cars, patrocinadas pela Mercedez Benz. Desde setembro de 1986, Andy Warhol cumpria esse contrato." (Fernando Carpaneda)

   Literatura

   O saudoso jornalista Robert Shelton, biógrafo oficial de Bob Dylan, lança a biografia No Direction Home.

   • É publicado o livro Aspiro Ao Grande Labirinto, de Hélio Oiticica, Editora Rocco.

   • José Paulo Paes lança a coletânea Um Por Todos, Editora Brasiliense.

   • Chacal lança Comício de Tudo.

   • Quampérios de Chacal é reeditado pelas Edições Guarnicê.

   • Rubem Fonseca lança  Bufo & Spallanzani

   Filmes

   No Tempo de Glauber (Roque Araújo). Segundo o diretor, maquinista, eletricista, maquiador e colaborador de Glauber Rocha, o filme: é uma tentativa  de preservar a memória do genial diretor brasileiro, através não só de trechos de suas últimas criações, mas também recorrendo ao farto material documental que suas equipes registraram dele durante filmagens, especialmente quando da realização de A Idade da Terra.



    Nem Tudo É Verdade (Rogério Sganzerla). Arrigo Barnabé é Orson Welles!

   25 março



Obituário

6 janeiro

Ronnie Cord, com câncer no pulmão, morre no hospital da Beneficência Portuguesa, zona centro de São Paulo. É o ano em que completaria 43 anos.

• Morre Marco Antônio Araújo

21 jan.

Morre o artista plástico alemão Joseph Beuys, 12 mai. / 1921-1986.

14 abril

Simone de Beauvoir, 9 jan. / 1908; escritora morre.

14 junho

Morre o escritor, poeta, tradutor e crítico literário Jorge Luís Borges

13 julho

Morre o pintor Brion Gysin, 19 jan. / 1916-1986.

31 agosto

Henry Spencer Moore (1898-1986)

9 dezembro

86 claudiozzz1945

Nove tiros em Cláudio Barreto, líder do grupo roqueiro-teatral Espírito da
Coisa. Quem disparou?

Nove tiros em Cláudio. Quem disparou?
(Gabriel Nogueira*)
Ninguém sabe quem matou tão barbaramente o líder do grupo Espírito da Coisa
O assassinato do líder do grupo roqueiro-teatral "Espírito da Coisa", Cláudio Barreto, deixou seus integrantes "sem pai, mãe, amigo, irmão, amante, namorado e primo", segundo as palavras da produtora Lia Segadas Vianna, última pessoa a estar com ele. Ainda muito abalados com o brutal assassinato de Cláudio, cujo corpo foi encontrado na manhã de sábado, com nove perfurações de tiros, jogado em uma vala da estrada Riachuelo, que liga Resende a São José do Barreiro, na divisa do Rio com São Paulo, nenhum dos integrantes do grupo quis falar com a imprensa. Só no final da tarde que a produtora Lia atendeu ao telefone. Segundo ela, os jornais do Rio deram a notícia da morte de Cláudio de uma forma muito sensacionalista, inclusive falando que a sua última namorada, Leila "seria casada com um mafioso".
Antonio Cláudio de Muniz Barreto, seu nome completo, estava com 37 anos e tinha grandes esperanças de o grupo alcançar vôos mais altos, após os sucessos "Ligeiramente grávida" e "Salário mínimo", do primeiro LP. O segundo long-play, também pela gravadora Top-Tape, estava para ser lançado e, acreditando no seu sucesso, Cláudio pedira até demissão do Banco do Brasil, onde um cargo importante lhe assegurava a carreira artística antes da fama.
Lia Segadas Vianna disse que ninguém ainda sabe o motivo do seu assassinato.
Na sexta feira, Cláudio tirou Cz$ 130 mil do banco, deu Cz$ 30 mil a Lia para pagar coontas suas e saiu com os 100 mil. Ia para Resende, onde compraria um carro, e depois seguiria para férias em Penedo. Leila, a namorada misteriosa, que o pessoal do grupo só conhecia por telefone e nem sabia o sobrenome, ligou para o artista para oferecer carona.
O inspetor Dantas, da 86ª DP, de Resende, acredita que o artista foi vítima de crime passional ou vingança: "Ninguém mata para assaltar dando nove tiros e depois ainda tenta esconder o cadáver". Pistas, por enquanto, não há nenhuma.

*O Est. S. Paulo, 9 dez. / 1986.

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