Quando a sorte te solta Marco Antônio Araújo na noite!

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quando a sorte te solta Marco Antônio Araújo na noite!
 
Ele nos dava a impressão essencialmente de ter muito mais para dar do que nós tivemos a oportunidade de receber.
 
"Esse Brasil tá um país muito gozado demais. Porque isto tenho falado em todos os lugares em que a gente toca. Sempre tem alguém desse gabarito, e que de repente o espaço para se tocar é pequeno demais. E acontece que muita gente acaba não conhecendo. Então, eu acho que o maior sentimento a cultivar no Brasil hoje é o da curiosidade, porque as coisas óbvias estão estampadas por aí, pra todo mundo ver, até encher o saco... – e coisas como essa só se descobre se a gente for muito curioso –, então, é quando nós tentamos com esse sentimento da curiosidade que não perdemos coisas como essa. (Frase de Marco Antônio Araújo, em seguida à apresentação do violonista Marco Pereira.)
 
?"A única instituição profissional de Minas é a política. Para ela, não há limite de recursos", ironizava.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Dono de um talento ímpar, o músico mineiro Marco Antônio Araújo era tratado pela mídia com o conhecido descrédito que dedicam a quem faz arte por amor. Ele não era ligado a nenhuma grande empresa, dessas que ditam o que é bom ou ruim para as pessoas. Seu talento pode ser comprovado nos cinco discos que lançou, com muito sacrifício, em esquema independente. Em sua alquimia musical, destacam-se as mais diversas influências. Sobretudo do rock dos anos 60 e 70, mas também e principalmente do barroco mineiro. As composições "Folk song" e "Abertura Nº 2" demonstram isso.
 
Quando comenta os seus trabalhos, a parca mídia musical brasileira geralmente cita as influências estelares do rock britânico no trabalho de Marco Antônio Araújo. Isso deve acontecer por causa da sua conhecida estadia na Inglaterra. E boa parte das influências apreciadas pelo músico mineiro e pelos críticos desfalcava o cenário no qual o compositor, diretor musical, violoncelista e guitarrista – com toques de violão ovation, folk e viola grávida –, com os condimentos do barroco mineiro e do rock, mas as suas inovadoras orquestrações, revolucionava o panorama musical instrumental feito no Brasil.
A simplicidade e conscicência artística, incrivelmente raras nos músicos e produtores musicais brasileiros, na atualidade, era a principal qualidade de Marco, que se manteve fiel a suas ideias musicais universais.
 
Além do amor a Pink Floyd, Jimmy Page, Jethro Tull, Marco Antônio Araújo curtia Beatles, Rolling Stones, tocava Verdi, Brahms e Beethoven na Orquestra, e também o mineiro José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita. Essas impressões vieram muitas vezes creditadas nos títulos das suas canções: "Floydiana", "Para Jimmy Page"...
 
Marco Antônio Araújo dividiu com Randy Rhoads, o mago americano do heavy metal, também precocemente desaparecido, a difícil operação de estender e redefinir as partituras, sonoridades e horizontes do rock. Essa reavaliação e reestruturação do rock com o erudito, proposta por eles, não atravessaria o meio da década. Os realizadores mais próximos de concretizar essa instigante alquimia desapareceram, e se levou algum tempo para alguém sacar que haviam completado suas participações.
 
Infelizmente, Araújo veio a falecer em janeiro de 1986, na primeira semana do ano, uma segunda-feira. O ano começou mais pobre musicalmente. Justo no momento em que ele começava a receber a atenção – e o respeito – ao seu trabalho
 
Voz do povo
 
Marco Antônio Penna Araújo nasceu a 28 de agosto de 1949, em Belo Horizonte, onde se criou. Ao final da década de 60, conquista fama de mau vizinho, por causa do rock ensurdecedor do seu grupo Voxpopulli, que lançou um compacto, em 68, com a música "Dia D".
“Voxpopulli tinha uma música aparentemente hermética, mas que, depois de ouvida com atenção, trazia retratos, reflexos. Vivíamos, depois de uma Revolução que fizeram em cima de nós (...) Já naquele tempo, sentia-se uma interrogação permanente, com a resposta aflorando, dentro do trabalho.” Escreveu Carlos Felipe.
Com o fim do Voxpopulli, Marco Antônio Araújo segue como músico em gravação do Som Imaginário. Nesse mesmo 1968, ele larga a faculdade em Belo Horizonte, sai da casa dos pais, abandona um emprego sólido, e troca os compêndios de economia pela guitarra... e uma passagem.
 
Imprevisível e atento, como bom virginiano, abandona as carreiras incipientes. Decidido a aprimorar-se no rock, parte para um exílio voluntário na capital inglesa.
De 1970 a 1972, é visto na imponente e barulhenta Oxford Street, no centro de Londres, arquejante, carregando pesados móveis para uma empresa transportadora. O salário ganho nesse ofício penoso é vertido sem demora na compra de ingressos para temporadas de rock, armadas na lendária sala de espetáculos do Albert Hall ou nos enfumaçados pubs e clubes da cidade. Economiza do estritamente necessário para alimentação e aluguel.
Na plateia, curte as piruetas de Robert Plant e Jimmy Page, do Led Zeppelin, os agudos de Ian Gillan, do Deep Purple, além das viagens do Pink Floyd, e dos delírios da formação clássica do Jethro Tull. Vislumbra assim imperdíveis oportunidades diariamente, até mesmo duas vezes no mesmo dia. Também convive com alguns brasileiros, que então compartilham politicamente o exílio cultural (Gilberto Gil, Ângela Ro Ro, Jorge Mautner, Mutantes, Neville D´Almeida, Rogério Sganzerla, Jards Macalé, Antônio Bivar, Caetano Veloso...).
 
Na volta ao Brasil, o rapaz de cabelos grandes e olhos profundos, de olhar às vezes triste, escolhe uma trilha pouco ortodoxa. Ao invés de montar uma banda de rock, resolve estudar a fundo a música erudita, na Escola Nacional de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá estuda teoria musical, composição e contraponto, e pratica exaustivamente violoncelo e violão clássico.
Discípulo e aluno de mestres como Esther Scliar, Lindembergue Cardoso, Marco Rocha e Eugen Ranevisky, sua dedicação o conduz, com naturalidade, a ocupar uma vaga na Orquestra Sinfônica da Fundação Clóvis Salgado, de Minas Gerais.
 
Em 1977, passa no concurso e atua por oito anos como violoncelista em Belo Horizonte, uma atividade que lhe exigia três horas diárias de ensaio e frequentes apresentações. Ainda nesse ano, inaugura o projeto Maravilhosos Músicos Mineiros.
 
Com os longos cabelos levemente afastados do rosto, e no olhar um brilho de luta e vitória a acompanhar o semblante visionário, ele delineava as batalhas e preparava os passos. Estrutura a primeira grande vitória para a música instrumental brasileira. A impressão é de ser ungido da Música, e predestinado ao sucesso. Seu trabalho musical está com a preocupação voltada para uma pegada própria, e que, em aparente contradição, não é propriamente sua, mas universal. Assim é a fórmula adotada. Ele quer que sua música seja entendida e amada. Ela é uma síntese de seu rigor consigo mesmo: “Sou perfeccionista, requintado, exigente, rigoroso, doido e lúcido, ambicioso, egoísta, consciente e generoso.”
 
Em 1981, aos 32 anos, lança o surpreendente Influências, um extraordinário disco de estreia, que rompe as barreiras das alfândegas culturais e regionais. Influências é o auspicioso marco inaugural da obra de Marco Antônio Araújo, e mesmo sem shows de lançamento fora de Minas, com uma resenha simples na revista Veja, ultrapassa a casa das dez mil cópias.
 
Estreia eclética
Okki de Sousa – Veja
 
Em apenas seis faixas instrumentais, destila com grande habilidade nas aventuras pelo rock, modinhas mineiras, música clássica, e até pela música renascentista inglesa. Na explosiva mistura, atinge estilo próprio e bem-acabado. Como na faixa-título, em que o maestro Jaques Morelembaum rege pequeno naipe de metais, ou na inspirada "Abertura n.º 2", na qual exibe notável senso de equilíbrio à frente de seu grupo Mantra, acima de tudo planta uma semente de inovação na musicalidade da raízes mineiras.
 
Quando a sorte te solta um cisne na noite – ou o disco do cisne
 
Por ser pastoral, e conter "Floydiana", o disco assume um pressuposto de ser o disco "do cisne", em contraponto ao "da vaca".
Simplifica com grandiosidade as experiências pop e erudita do Cisne de Minas. Pra lá de cantochão. 'Floydiana', sem ser parecida com nada, lembra os belos momentos do conhecido Atom Heart Mother.
A competência é marcante nas execuções e arranjos (tão perfeitos ao vivo quanto em disco), compartilhados com os músicos do Grupo Mantra, que também atuavam com Marco na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Sobre a tessitura delicada, que nasce com o piano de Max Magalhães, surge crescente a base sutil do ovation e do violão folk, panorama ideal para uma trip de paisagens mineiras/universais, assopradas na flauta de Eduardo Delgado, no cello de Antônio Viola, na guitarra de Alexandre Araújo, na trompa "rosácea" de Sérgio Gomes. Tudo é metronomicamente ritmado pelo baixo de Ivan Corrêa e pela bateria de Mário Castelo.
Há picos de culminância estética difíceis de definir e a calmaria dourada de sóis e rios, em "Alegria" e "Adágio", esta canção de câmara, feita para um amigo, ou para muitos, "Quando a sorte te solta um cisne na noite". Até a lúdica imprevisibilidade da poderosa eclosão pop/rock da faixa "Pop Music". É um cisne, enfim, que não passa em branco.
“A síntese ideal da música de nosso tempo, com lampejos do mais saudável rock mesclado ao conhecimento da Música como fato universalizante, em linguagem compreensiva a todos e para o sempre. Isso tudo está clara e fluidicamente apresentado neste segundo álbum” – Paulo Klein comenta Quando a sorte te solta um cisne na noite, na revista Somtrês.
 
 
 
Suas apresentações: de embrião ao nascimento
 
 
Marco Antônio Araújo toca violão ovation e violoncelo, acompanhado por Eduardo Delgado, flauta, Antônio Viola, violoncelo, Alexandre Araújo (seu irmão), guitarra, José Marcos Teixeira, teclados, Ivan Corrêa, baixo, e Lincon Sheib, bateria. Eles interpretaram músicas que integram seus três discos, e que incluem temas que somente seriam lançados no seu quinto disco, Lucas. Na primeira parte do programa, "Grave", "Folk song", "Influências", "Floydiana" e "Panorâmica". Na segunda, "Para Jimmy Page", "Caipira", "Lembranças" e "Lucas", todas do ainda inédito Lucas, e finaliza"Abertura Nº 2".
 
A celebração ao vivo era desarraigada, e acontecia o grupo impregnava as salas de concerto com varreduras polifônicas, e o mestre do ovation explanava alto as suas ideias, fincadas na oposição ao que estava estabelecido pelos ditames do comércio fonográfico, imposto pelo jogo da indústria cultural, essa mesma que bancou a glória e também o sepultamento precoce de tanta gente. Ele tinha naturalmente consciência do seu papel e das dificuldades para a glória efêmera, pois queria muito mais.
O primeiro dos cinquenta shows que o Marco Antônio Araújo Grupo realizou pelas capitais brasileiras foi em agosto de 1984, no Masp. Para mim, foi um ano de agonia para que o show Instrumental 85 chegasse à Capital Federal. Com a lotação esgotada nos três dias, teve a participação de músicos indianos num duelo raro de seus instrumentos com o violão de Alexandre Araújo.
Nos camarins, era impossível se aproximar para conversar. O ponto crítico do espetáculo era o bis. A estrutura e sequência das músicas não mudaram, o que mudou foi a interpretação, de redenção total dos músicos ao musical, que caminhavam na direção do belo horizonte... Testemunhei isso, e tive a felicidade de editar fitas cassetes, gravadas nos shows de São Paulo–1984, e Brasília–6 jun. / 1985. Acompanhávamos a turnê via tijolinhos nos jornais das outras capitais. Foi uma experiência familiar, uma vez que minha irmã e a minha namorada também foram comigo ao show. Foi absolutamente marcante, e de alguma forma não permitiu explodir de tristeza o rasgo nas nossas almas, pela rápida partida de Marco Antônio Araújo.
 
O Rock como um elemento
Entrevista de Marco Antônio Araújo a Irlam Rocha Lima, do Correio Braziliense, em 4 jun. / 1985
 
A exuberância de seu trabalho instrumental dispensa o explícito do verso, suas rimas estão nas cores dos timbres
 
Competência musical sobriamente inspirada, doce, criativa, fluindo sem afetações ou experimentalismos desnecessários, já exaustivamente percorridos.
Marco não esconde suas fissuras roqueiras, apesar de condimentar seu rock com elementos da fase áurea do barroco mineiro e da melhor tradição sinfônica. Sua competência é marcante nas execuções e arranjos, tão perfeitos ao vivo como em disco. Na atual olimpíada do banal, Marco Antônio Araújo cintila. Em primeiro lugar, porque ele é musico.
 
Em conversa com o jornalista Irlam Rocha Lima, no final da excursão, em uma sala da Vasp (que patrocinou a excursão, pelo menos as passagens), em meio ao estudo do plano de viagem, ele falou sobre sua carreira, influências e sua alma musical, que não encontra parâmetro entre o que se produz musicalmente no Brasil atual. Expôs a dimensão do trabalho de Marco mostrado nas suas apresentações em Brasília, na excursão do show Instrumental 85.
 
Marco Antônio, como você situa seu trabalho nos estreitos limites entre o erudito e o popular?
Eu, como músico profissional, não faço nenhuma distinção entre o erudito e o popular. Você está falando que a relação é estreita. Eu acho que ela é íntima. A única coisa que conta dentro de um trabalho artístico de altíssimo e de baixíssimo nível, como existe também no campo erudito, é que uma coisa é interligada com a outra, pois todas as tendências vêm de uma mesma raiz popular anônima, a raiz popular do folclore. São tratamentos diferenciados dados aos temas folclóricos do sentimento da região, do povo, da Nação, e por aí afora. Então eu acho que a única coisa que existe entre o erudito e o popular, se a gente puder separar essas duas áreas, é uma diferença de acabamento.
Como é que se processa sua alquimia? Com informações, com as influências que você recebeu dos Beatles, do barroco mineiro e da música clássica, o que é que acaba prevalecendo?
Além de não ter preocupação com prevalência desse ou daquele elemento, o meu trabalho não é a estilização de nenhum estilo. Não é a estilização de nenhuma tendência. Eu não procuro por exemplo fazer uma coisa parecida com o que os Beatles fizeram, nem com o barroco mineiro, nem com qualquer outro tipo de tendência. Porque eu acho o seguinte: o artista é um filho das vivências dele. Eu tive essas vivências, e elas são fortes. Sou fortemente influenciado pela época pop. Eu cito os Beatles, porque eles foram os geradores do movimento pop. Cito de vez em quando o barroco mineiro, porque sou de Minas Gerais, e Minas é um Estado muito musical, cheio de folclore, e o barroco mineiro é um tratamento erudito dado aos temas do folclore mineiro. Então, o meu trabalho é simplesmente uma consequência dessa minha vivência musical, de mineiro ambientado em Minas Gerais, e de uma influência pop decorrente de minha geração.
É difícil ser músico em Minas, sem pertencer ao Clube de Esquina, a "turma do Milton Nascimento"?
Eu não me sujeito a nenhum tipo de dependência. E acho que a pessoa tem que se garantir pela sua competência, pela sua qualidade, pela sua proposta. Tem que medir seu tamanho a partir de si próprio, e finalmente, e vitoriosamente, sem estar apoiado a grupos por interesses, ou apadrinhado por ninguém. Acho isso muito importante.
Numa época em que é muito forte a tendência para absorção do chamado som descartável, você vê muita dificuldade para colocar e veicular esse tipo de música que faz, que é uma coisa muito mais elaborada?
Quanto mais material descartável tiver, maior vai ser o meu espaço. Porque a saturação de um certo esquema do material descartável está acontecendo. Então, quanto mais saturado ficar o público, por isso, ele vai acabar procurando outras opções, e aí está o meu campo de trabalho.
Apesar de possuir quatro LPs gravados, você continua sendo um artista independente. Isso é uma opção sua, ou as gravadoras é que não se entusiasmam muito pelo tipo de música que você faz?
Veja bem: eu procuro condições para que meu trabalho aconteça num nível que acho que ele mereça. Qualquer esquema que fosse montado por trás do meu trabalho, e que me desse confiança, essa segurança e conforto, eu abraçaria, numa boa. Eu não tenho preconceito contra gravadora. Não tenho preconceito contra nada, desde que eu tenha condição de trabalhar. Em 1980, por exemplo, antes de gravar meu primeiro disco, tentei fazer meu trabalho através de uma gravadora, mas ele foi taxado burramente de música clássica. Argumentaram também na época que música instrumental não vendia, que o público não tinha sensibilidade para isso. Esse tipo de argumento furado foi o que ouvi por aí afora. Então, hoje, quando já vou lançar meu quinto LP, eu criei um sistema para que isso fosse possível. E esse sistema, atualmente, está muito sólido. Tanto que estou fazendo uma turnê nacional para o lançamento de um disco de música instrumental-independente, no Brasil. Posso provar com isso que meu sistema, que o meu ponto de vista está certo, e que está acontecendo. Pra eu entrar em outro esquema agora, tipo uma gravadora, seria um trabalho com um preço muito alto, porque são dez anos de estrada. Isso ninguém dá de graça pra ninguém, nem faz tratados com gravadoras da maneira que elas querem. Por isso, acho completamente impossível minha integração a uma gravadora, pura e simplesmente.
Mesmo com toda essa bagagem, com esses quatro discos lançados, você, seu trabalho, até há pouco, estava restrito a Minas Gerais. Nos outros estados, a não ser os iniciados, pouca gente conhece sua música. Agora, com o show Instrumental 85, você faz uma excursão de Porto Alegre a Fortaleza. Isso é uma grande ousadia, concorda?
Bom, eu acho que a força motriz de qualquer evolução é a ousadia. Não uma ousadia sem fundamento, uma porralouquice qualquer, mas uma coisa bem-pensada, bem racional. Eu sou uma pessoa muito racional. Nunca dou um passo maior que minhas pernas. Então, como você disse, o meu trabalho é muito conhecido em Minas. Mas acontece que eu já estava sem espaço em Minas para tocar. Já começava a virar repetição. Acho também que uma das motivações para a evolução é o sufoco: você chega num ponto em que tem que tomar uma atitude. E essa atitude só vem da necessidade. Eu senti a necessidade de abrir o meu campo de trabalho. O meu trabalho sustenta uma equipe enorme, que me cobra trabalho, e eu tenho que sobreviver disso, juntamente com outras pessoas. Então eu tenho que ser ousado, e sei que estou sendo ousado ao fazer essa excursão – com o imprescindível auxílio da Vasp, com o apoio de uma empresa igualmente ousada, que investe em música instrumental no Brasil. Esse trabalho estava restrito a Minas e São Paulo, mas agora pode ser ampliado por várias regiões brasileiras.
Com a chegada da "Nova República", você vislumbra melhores dias para a música, para as artes em geral, para a cultura no Brasil?
Eu torço para que isso aconteça, mas quero deixar claro uma coisa: nunca dependi do sistema anterior, e pretendo não depender desse novo para a sobrevivência do meu trabalho. Mas eu torço para que a situação seja muito melhor do que já foi, não só no campo artístico, mas principalmente no campo social. Acho que a criação do Ministério da Cultura deveria estar muito voltado para a preservação da cultura nacional, para a restauração da cultura, que está sendo comida pelas baratas nos museus. Eu estou falando isso não é figurativamente, não. Estou falando literalmente. Fiz uma pesquisa sobre música mineira para a Companhia Siderúrgica Mineira, com um contrato fechado para a realização de três discos, com músicas inéditas do barroco mineiro, e achei partituras no Museu de Mariana faltando várias notas. Essas notas foram comidas pelas baratas.
 
 
Lucas
 
 
 
Lucas está entre os cinco melhores discos do Brasil em 1985, uma espécie de continuidade sintética de toda uma vida. Na faixa "Lucas", a canção de ninar e o acalanto finalmente chegaram ao sintetizador, e vice-versa. Segundo o jornalista Carlos Felipe, “uma canção de ninar da era eletrônica”.
Inesquecível foi a abertura do show e coquetel de lançamento do disco Lucas, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, no dia 26 de novembro de 1985. Nesse dia, Marco Antônio Araújo lançou o seu quinto LP. Ele entrou no ambiente com Lucas, seu filho, mais a bailarina e professora de dança Déa, mãe também de Ana, nascida nesse mesmo ano. E com aquele jeito seu característico diz que aquele menino é uma das pessoas que mais ama na vida, e por isso tinha dedicado o show e o disco a ele.
Além de produzir os cinco discos de Marco Antônio Araújo, o selo independente Strawberry Fields (outra arrojo do músico) atuou como produtor, trouxe artistas a Belo Horizonte e produziu discos. Para a Belgo – Companhia Siderúrgica Mineira, o selo Strawberry Fields cumpriu dois LPs de um contrato que prévia três discos, com músicas inéditas do barroco mineiro. O LP Concerto Barroco Nº 1 saiu em 1984, e o Concerto Barroco Nº 2, em 1985. Durante a pesquisa, Marco Antônio Araújo encontrou partituras no Museu de Mariana, em que faltavam várias notas, pois foram comidas pelas traças.
Para o Banco do Brasil, Marco Antônio Araújo produziu o primeiro disco do Projeto Música da Inconfidência, que seria concluído em 1989, juntamente com o bicentenário da Inconfidência Mineira. Neste LP, foi apresentada uma obra inédita de Manoel Dias de Oliveira, músico pouco conhecido do barroco mineiro, que viveu no Vale do Rio das Mortes.
Como produtor de shows, o Strawberry Fields realizou um projeto que levou diversos músicos de Minas a dezenas de cidades do Estado. Foi um trabalho que abriu campo para experiências semelhantes, e que serviu para que os artistas da terra percebessem o espaço que tinham para conquistar.
 
Coda
 
No piano da casa de seu pai, com a tecla do lá mais grave queimada de cigarro, o principiante Marco Antônio Araújo passava horas a fio em cima das mesmas notas, sem saber que não teria chances de repor a tecla. Quando escrevia partituras, ou praticava violoncelo, ele ficava tão azedo que brigava até com crianças impertinentes, e pedia que encostassem a porta do quarto, ou então que usassem algodão nos ouvidos. Suas explosões temperamentais geralmente ocorriam quando ele cozinhava, e também quando passava horas temperando seus haddocks e bebendo vinho branco gelado, acompanhado de queijo.
A 3 de janeiro de 1986, recém-chegado de Nova Iorque, uma segunda-feira triste, depois do almoço, ele dá uma descansadinha... e deixa de retornar algumas ligações. Daquela tarde, não acorda mais, pois o descanso transforma-se em agonia. No Prontocor, se ele escapasse da agonia, disseram, teria de viver o resto de seus dias preso numa cadeira de rodas. Assim, morre na quinta-feira (6 jan. / 1986), e seu enterro ocorre sete dias depois, outra segunda-feira amarga.
Seus últimos projetos: musicar as novas histórias do musical Chapeuzinho Vermelho, com letras de Fernando Limoeiro, cenários de Álvaro Apocalypse e grande elenco, com a participação de Carla Camurati. O espetáculo John Lennon Remember também estava nos projetos de Marco Antônio Araújo, para ser apresentado igualmente ao Instrumental 85, pelas 17 capitais brasileiras. Já estava com datas reservadas para o mês de dezembro de 1986, em Belo Horizonte.
 
Frases
 
"Eu adoro os Beatles, os curto desde os seus primeiros discos."
 
"Não existe artista ambientado com o palco. Você está ali no camarim, morrendo de rir, conversando. No palco, é outro papo. É uma coisa que eu não sei definir o que é; não é um lance assim de vaidade, do egocentrismo, de autoafirmação, não é nada disso. É uma coisa diferente que acontece, você fica esquisito, todo mundo esperando o que você faz, é um lance muito louco. Tem uma frase bonita demais de um filósofo hindu, que é uma coisa incrível. Ele fala que a maior forma de expressão que existe é o silêncio, porque do silêncio você pode esperar tudo."
 
Estado de Minas: Marco Antônio Araújo, como artista, você se sente um ser especial?
É um lance em que tenho pensado muito, ultimamente. A diferença entre um débil mental e um gênio é mínima. Porque o milagre de existir uma pessoa já está feito. O milagre de você existir já é tão incomensuravelmente maior do que uma pessoa pode fazer que esse tipo de questionamento fica ridículo. A possibilidade da pessoa é tão infinita, a partir do momento em que ela seja concebida e exista, que o questionamento do egocentrismo, da vaidade, não tem sentido. Porque se você pegar, por exemplo, o maior gênio que já existiu, e que é Beethoven, que morreu dizendo que nada sabia de música, que não sabia fazer contraponto, se quem mais soube falou que não sabia direito o que está fazendo, pode falar alguma coisa? Eu acho que essas proporções do sentimentalismo, do egocentrismo, da emoção, são muito variáveis, e dependem da personalidade e da proposta da pessoa. Se vestem Michael Jackson de prateado para ganhar milhões de dólares, não é que ele está fazendo isso, mas uma máquina é que está atrás disso. Então, esse lance de o artista fazer parte da personalidade da pessoa, se é uma pessoa simples ou complicada, como vivemos num sistema capitalista, as pessoas são induzidas a fazer desse jeito, ou a gravadora a manda embora, porque não sabe mais, e assim botam um robô qualquer no lugar dela. Mas a pessoa que tem uma proposta não vai abrir mão dela, porque senão ela vai ficar insatisfeita.
 
Discografia
 
• Influências – com as músicas "Influências", "Abertura nº 2", "Panorâmica", "Folk song". Esse é o disco debut, marcadamente original, assim como a personalidade de Marco.
• Quando a sorte te solta um cisne na noite – o "disco do Cisne". O título do LP já reverencia as suas influências, algo assim como Atom heart mother, do Pink Floyd. É o seu disco mais rock, com "Floydiana", "Adágio", "Pop music". Talvez também o mais conhecido dos seus cinco discos.
• Entre um silêncio e outro – O mais erudito de seus trabalhos, reconfortante. Traz uma linda capa e encarte, que desaparece nas prensagens posteriores. "Acho primoroso este disco, até pelo fato de, em alguns movimentos, se aproximar do clássico que o Marco Antônio sempre foi." (Nestor Santana, produtor)
• Animal Racional – A capa segue os padrões do disco, uma coletânea com novos arranjos para clássicos, algumas músicas anteriormente gravadas. Foi financiado pela Vasp, tem um texto do crítico Maurício Kubrusly, que inicia o reconhecimento devido ao grande músico.
• Concerto Barroco Nº 1
• Concerto Barroco Nº 2
• Projeto Música da Inconfidência
• Lucas – Rock e demais influências elevadas à perfeição. Como não viajar em "Lucas", música que leva o nome do seu filho? Ainda temos "Lembranças", e também a transcendental "Para Jimmy Page".
 
Barroco progressivo
Walter Sebastião – Estado de Minas, 23 nov. / 1999
 
"(...) Ainda hoje, existem trabalhos inéditos do músico. São eles: Fantasia, (uma sinfonia), Folhas noturnas e Quatro condições de um pássaro solitário, além de peças para violão e instrumentos de câmara. Trata-se de material que pode virar vídeos, songbooks, discos etc., mas para isso é necessário patrocínio. Até pela necessidade de que o trabalho seja realizado com a qualidade necessárias, que é a marca de Marco Antônio", avisa Alexandre Araújo, seu irmão.
 
Participações
 
Marco Antônio Araújo participa do primeiro LP do Som Imaginário, e também do Quando fui morto em Cuba, de Marcus Ribas.
 
Algumas trilhas sonoras produzidas por Marco Antônio Araújo
 
• Rudá, peça de José Wilker
• Cantares, espetáculo do grupo O Corpo
• John Lennon Remember, show campeão de público em toda a história do Palácio das Artes, o maior teatro mineiro.
Arranjador requintado, homenageou por diversas vezes os Beatles e os Rolling Stones, o que julgava ser uma “verdadeira música clássica”. Numa dessas homenagens, John Lennon Remember, sob a sua direção, teve a participação da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e do “Corpo de Baile" e "Coral da Fundação Clóvis Salgado".
 
 
Homenagens
 
Com o acróstico MAPA (Marco Antônio Penna Araújo), o grupo Uakti batiza o seu sexto álbum.
 
1985
 
22 jan. a 22 fev.
• Carlos Vergara organiza individual no Brazilian Centre Gallery, em Londres, onde expõe pinturas em grandes formatos. É codiretor, com Belisário França e Piero Mancini, do vídeo Carlos Vergara: uma pintura, que integra a Série RioArte Vídeo/Arte Contemporânea.
24 jan.
• "Eu não posso precisar nem o mês nem qual das passeatas foi filmada, não me lembro. Glauber queria fazer um filme sobre aquele momento, mas ainda não tinha um projeto ficcional. Fizemos apenas um registro documental. A repressão política e a falta de liberdade de expressão impediram a continuidade do projeto. Em fins de 1969, Glauber e eu saímos do país." (Affonso Beato)
Fevereiro
• "Tudo corria velozmente e, em fevereiro de 1985, entramos no estúdio para gravar o nosso quinto disco. Com a entrada do Pappo, o som ficou mais pesado, e como ele é um soberbo guitarrista, o som ficou como sempre sonháramos. Mas nosso sangue de roqueiro nos empurrava para o lado oposto do que se supõe que era o rock comercial do momento. Mais uma vez, dissemos foda-se, e em três dias gravamos três temas: 'Robot', 'Olho animal' e 'Mulher fácil'. O quarto tema, 'Deus devorador', foi composto e gravado no terceiro dia no estúdio, feito em um take." (Rolando Castello Jr.)
Março
• Dois anos depois, voltando do Rio de Janeiro, para fazer o show de lançamento do primeiro disco, no espetáculo Verão Cultural, onde dividia as apresentações com Cyda Moreira; Renato Russo foi o terceiro a chegar ao seu show, o primeiro fora o porteiro. A camiseta branca e sempre o casaco amarelo, arredio, incrivelmente branco, como um fantasma notívago.
Abril
• Fundação, a que começa, Ary Pára-raios – Editor de cultura
4 abr.
• Escola de Escândalo: uma banda que faz escândalo
10 abr.
• Tique-tique
Nervoso demais
(J. Caribé)
 
Não se enganem, o Kid da foto não é o Kid Gatilho, e nunca trabalhou em filme de bang-bang. Posso assegurar também que não faz parte dos quadros da polícia. Este, meus amigos, é o Kid do grupo musical Magazine, que esteve em Brasília apresentando-se no concerto Rock in Prima, festa promovida pelo Clube Primavera e produzida por este locutor que vos fala.
Vocês perguntarão, porque o Kid aqui neste espaço sem os seus companheiros de grupo? É o seguinte, este sarará de quase dois metros de altura não é só cantor e produtor de discos, ele é também um emérito espancador de crianças, como demonstrou na tarde de sábado, no restaurante do Kingstown Hotel, em Taguatinga. Usando os tradicionais óculos para espantar crianças, o Kid, depois de ouvir de um garoto de mais ou menos 4 anos o tal "Tique-tique nervoso", não ficou muito alegre, e gritou com o fedelho. Com jeito meio estranho, o Kid Porrada ouviu do garoto o seguinte: "Você parece gay." Isso foi o bastante para que Kid Safanão sentasse o cacete no garoto, até postá-lo na "lona". Marcão Adrenalina, Luizinho Tostes e muitas outras pessoas viram essa demonstração de selvageria, e tentaram reagir em defesa do garoto, mas o agressor partiu em retirada, refugiando-se em sua caverna.
Um aviso aos navegantes: "Quando contratarem o Magazine para um show em Brasília, é bom guardar as crianças em casa."
 
 
 
 
14 abr.
• Revitalização
 
 
22 abr.
• Sarney assume a Presidência
Maio
• A unidade é Bob Dylan
Agosto
• Vandré, poema de Reynaldo Jardim
21 a 28 ago.
• Cine Brasília. Mostra Glauber por Glauber, o fato cinematográfico do ano. No quarto aniversário da morte de Glauber Rocha, na abertura de sua retrospectiva mais completa, o presidente Sarney discursa em sua memória.
• É fundado por dona Lúcia Rocha o Tempo Glauber, que vem estimulando a realização de estudos, teses e livros sobre a obra de Glauber Rocha e o Cinema Novo. Também vem produzindo mostras, vídeos, exposições, e investindo na formação de profissionais.
23 set.
• Sarney, na abertura da Assembleia Geral da ONU, repete frase de Tancredo: "O Brasil não pagará a dívida externa com a fome do povo."
Outubro
• John Cage na 18ª Bienal de São Paulo
6 out.
• Domingo. Cage e Augusto de Campos se apresentaram no auditório do Museu de Arte Contemporânea, um encontro idealizado pela meio-soprano Ana Maria Kieffer (curadora do setor de música da Bienal) e pelo tenor alemão Theophil Maier, com auxílio de Caio Giarca nos meios visuais. Além da apresentação do Cage Campos, aconteceu também o "happening Cage", uma mostra sonora das obras do compositor, realizadas por vários grupos musicais, num total de 50 músicos espalhados pela Bienal, executadas por justaposição, o que deu oportunidade aos ouvintes de apreciá-las individualmente ou acopladas a outras.
6 nov.
• McCartney acusa Lennon: ‘Era um porco intrigante’
20 nov.
• Viagem pesada
 
 
Dezembro
• Egum, no dizer africano Alma (Ary Pára-raios)
16 dez.
• Rock: fim do culto à droga
18 dez.
• Em liberdade – Justiça dá habeas corpus ao líder dos Titãs
 
Música
• Bobby Geldof consegue reunir o Status Quo de novo para tocar no Live Aid, o que eles fizeram com grande alegria. A recepção à banda foi magnífica, e a volta era inevitável. Contudo, Rossi e Lancaster não concordavam com mais nada, musicalmente falando. Parfitt tomou o partido de Rossi, e Alan saiu da banda.
• Michael Jackson compra o catálogo dos Beatles, por US$ 47 milhões. Ele deu um lance maior do que o próprio Paul McCartney, que nunca perdoou o que julgou traição.
• John Fogerty. Seu álbum solo Centerfield é primeiro lugar na parada dos Estados Unidos.
• Final do ano: Ronnie Cord é internado com cancêr no pulmão.
 
Artes
• Pedro Escoteguy participa da Retrospectiva Opinião 65, na Galeria de Arte do Banerj/RJ, com Estória e O Circo. Participa da mostra Caligrafias e Escrituras, promovida pelo MinC/Funarte, na Galeria Sergio Milliet e Espaço Alternativo.
 
Literatura
• Dez anos depois, Robert Crumb voltaria às páginas de uma revista brasileira, nas cinco edições de Porrada (com excelentes textos do ligado Franco de Rosa). Crumb era o carro-chefe, com seus quadrinhos clássicos.
• Atrapalho no trabalho reúne os dois livros de John Lennon In his own write e A Spaniard in the works, versão para o português pelo poeta Paulo Leminski, que adaptou a viagem e os trocadilhos lisérgicos à realidade brasileira. O mestre com certeza aprovaria. Não afeitos a esta viagem, podem ler no original, uma vez que a edição é bilíngue. Na página inicial, Leminski diz não ter traduzido, e sim transcriados os livros. Você pode encontrar uma cópia na banca do Sebo itinerante, que acompanha os festivais alternativos pelo Brasil. Cu$tava un$ 35 reai$. Editora: Brasiliense Págs: 236.
• É editado O Século do Cinema, de Glauber Rocha. Editora Alhambra. Rio, 1985.
• Acid dreams: the complete social history of LSD. Martin A. Lee & Bruce Shlain, Grove Press, New York.
Porém, os casos ligados ao LSD aumentaram continuamente, chegando a 517 nos últimos seis meses de 1985, último período sobre o qual foram divulgados números. As autoridades do INAD acham que essas cifras representam uma fração mínima do consumo atual de LSD, no país. Não se dispõe de números para comparar a popularidade da droga nos anos 60 com a de agora, porque o LSD foi reunido com várias outras drogas para uma análise estatística desse período.
• Jerry Garcia é preso por porte de cocaína e heroína. Ele é sentenciado a cumprir uma temporada numa clínica de reabilitação.
 
Filmes
• The Look, Andy Warhol como ator
• It's all true. Foi considerado um filme perdido, até que, em 1985, os negativos de Quatro homens e uma jangada foram descobertos num depósito da Paramount, e cuidadosamente recuperados, graças à colaboração de instituições de diversos países.
Com a ajuda de Richard Wilson, remanescente da equipe original de Orson Welles, o filme foi montado do modo supostamente mais próximo possível às intenções do diretor.
• Céu em transe (Ricardo Favilla). Aos 18 anos, registrou o funeral de Glauber em sua câmera Super-8. Durante a exibição, em 1985, na competição de filmes em Super-8, no Festival de Gramado: "Algumas pessoas ligadas ao Glauber souberam da projeção e quiseram apreendê-lo. Tiramos o curta de lá às pressas. Ele nunca mais foi exibido", conta Ricardo Favilla.
 
Obituário
• Julian Beck (1923–1985)
• Marc Chagall (1887, Vitebsk, Rússia – 1985, Saint-Paul-de-Vence, França)
Janeiro
• Morre o músico Anton Karas
10 out.
• Orson Welles morre de ataque cardíaco. Tinha 70 anos.
12 dez.
• Ian Stewart, roadie and pianist with the Stones from very beginning, has been suffering from acute respiratory problems for several days and is visiting a specialist in a West London clinic when he dies of a massive heart attack. He was 47. Stewart was the only person in their entourage who had remained unaffected by the wealth and fame. He still herded them on stage by yelling, "Come on, my little shower of shit. You're on!"
mapa_1984
Quando a sorte te solta Marco Antônio Araújo na noite!
Ele nos dava a impressão essencialmente de ter muito mais para dar do que nós tivemos a oportunidade de receber

 

1985

QUANDO A SORTE TE SOLTA MARCO ANTÔNIO ARAÚJO NA NOITE! 

Texto: Mário Pazcheco -  10.000 dias de rock
Revisor: Luís Eduardo


Ele nos dava a impressão essencialmente de ter muito mais para dar do que nós tivemos a oportunidade de receber.

“A única instituição profissional de Minas é a política. Para ela, não há limite de recursos”, ironizava.

Dono de um talento ímpar, o músico mineiro Marco Antônio Araújo era tratado pela mídia com o conhecido descrédito que dedicam a quem faz arte por amor. Ele não era ligado a nenhuma grande empresa, dessas que ditam o que é bom ou ruim para as pessoas. Seu talento pode ser comprovado nos cinco discos que lançou, com muito sacrifício, em esquema independente. Em sua alquimia musical, destacam-se as mais diversas influências. Sobretudo do rock dos anos 60 e 70, mas também e principalmente do barroco mineiro. As composições “Folk Song” e “Abertura N.º 2” demonstram isso. 

Quando comenta os seus trabalhos, a parca mídia musical brasileira geralmente cita as influências estelares do rock britânico no trabalho do compositor, diretor musical, violoncelista e guitarrista Marco Antônio Araújo. Isso deve acontecer por causa da sua conhecida estadia na Inglaterra. Naquele instante, boa parte das influências apreciadas pelo músico mineiro e pelos críticos desfalcava o cenário no qual  – os seus toques de violão ovation, folk e viola grávida –, com os condimentos do barroco mineiro e do rock, inovavam as orquestrações revolucionando o panorama musical instrumental feito no Brasil.

A simplicidade e consciência artística, incrivelmente raras nos músicos e produtores musicais brasileiros, na atualidade, era a principal qualidade de Marco, que se manteve fiel a suas ideias musicais universais. 

Além do amor a Pink Floyd, Jimmy Page, Jethro Tull, Marco Antônio Araújo curtia Beatles, Rolling Stones, tocava Verdi, Brahms e Beethoven na Orquestra, e também o mineiro José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita. Essas impressões vieram muitas vezes creditadas nos títulos das suas canções: “Floydiana”, “Para Jimmy Page”...

Marco Antônio Araújo dividiu com Randy Rhoads, o mago americano guitarrista de heavy metal, também precocemente desaparecido, a difícil operação de estender e redefinir as partituras, sonoridades e horizontes do rock. Essa reavaliação e reestruturação do rock com o erudito, proposta por eles, não atravessaria o meio da década. Os realizadores mais próximos de concretizar essa instigante alquimia desapareceram, e se levou algum tempo para alguém sacar que haviam completado suas participações.

Infelizmente, Araújo veio a falecer em janeiro de 1986, na primeira semana, numa segunda-feira. O ano começou mais pobre musicalmente. Justo no momento em que ele começava a receber a atenção – e o respeito – ao seu trabalho


Voz do povo
Marco Antônio Penna Araújo nasceu a 28 de agosto de 1949, em Belo Horizonte, onde se criou. Ao final da década de 60, conquista fama de mau vizinho, por causa do rock ensurdecedor do seu grupo Vox Populi, que lançou um compacto, em 68, com a música “Dia D”. “Vox Populi tinha uma música aparentemente hermética, mas que, depois de ouvida com atenção, trazia retratos, reflexos. Vivíamos, depois de uma Revolução Cultural que fizeram em cima de nós (...)  Já naquele tempo, sentia-se uma interrogação permanente, com a resposta aflorando, dentro do trabalho.” Escreveu Carlos Felipe. Com o fim do Vox Populi, Marco Antônio Araújo segue como músico em gravação do Som Imaginário. Nesse mesmo 1968, ele larga a faculdade em Belo Horizonte, sai da casa dos pais, abandona um emprego sólido, e troca os compêndios de economia pela guitarra... e uma passagem. 

Imprevisível e atento, como bom virginiano, abandona as carreiras incipientes. Decidido a aprimorar-se no rock, parte para um exílio voluntário na capital inglesa. 

De 1970 a 1972, é visto na imponente e barulhenta Oxford Street, no centro de Londres, arquejante, carregando pesados móveis para uma empresa transportadora. O salário ganho nesse ofício penoso é vertido sem demora na compra de ingressos para temporadas de rock, armadas na lendária sala de espetáculos do Albert Hall ou nos enfumaçados pubs e clubes da cidade. Economiza do estritamente necessário para alimentação e aluguel. 

Na plateia, curte as piruetas de Robert Plant e Jimmy Page, do Led Zeppelin, os agudos de Ian Gillan, do Deep Purple, além das viagens do Pink Floyd e dos delírios da formação clássica do Jethro Tull. Vislumbra assim imperdíveis oportunidades diariamente, até mesmo duas vezes no mesmo dia. Também convive com alguns brasileiros, que então compartilham politicamente o exílio cultural (Gilberto Gil, Ângela Ro Ro, Jorge Mautner, Mutantes, Neville D´Almeida, Rogério Sganzerla, Jards Macalé, Antônio Bivar, Caetano Veloso...).

Na volta ao Brasil, o rapaz de cabelos grandes e olhos profundos, de olhar às vezes triste, escolhe uma trilha pouco ortodoxa. Ao invés de montar uma banda de rock, resolve estudar a fundo a música erudita, na Escola Nacional de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá estuda teoria musical, composição e contraponto, e pratica exaustivamente violoncelo e violão clássico.

Discípulo e aluno de mestres como Esther Scliar (†), Lindembergue Cardoso, Marco Rocha e Eugen Ranevisky, sua dedicação o conduz, com naturalidade, a ocupar uma vaga na Orquestra Sinfônica da Fundação Clóvis Salgado, de Minas Gerais. 

Em 1977, passa no concurso e atua por oito anos como violoncelista em Belo Horizonte, uma atividade que lhe exigia três horas diárias de ensaio e frequentes apresentações. Ainda nesse ano, inaugura o projeto Maravilhosos Músicos Mineiros. 

Com os longos cabelos levemente afastados do rosto, e no olhar um brilho de luta e vitória a acompanhar o semblante visionário, ele delineava as batalhas e preparava os passos. Estrutura a primeira grande vitória para a música instrumental brasileira. A impressão é de ser ungido da Música, e predestinado ao sucesso. Seu trabalho musical está com a preocupação voltada para uma pegada própria, e que, em aparente contradição, não é propriamente sua, mas universal. Assim é a fórmula adotada. Ele quer que sua música seja entendida e amada. Ela é uma síntese de seu rigor consigo mesmo: “Sou perfeccionista, requintado, exigente, rigoroso, doido e lúcido, ambicioso, egoísta, consciente e generoso.”

Em 1981, aos 32 anos, lança o surpreendente Influências, uma extraordinária estreia, que rompe as barreiras das alfândegas culturais e regionais. Influências é o auspicioso marco inaugural da obra de Marco Antônio Araújo, e mesmo sem shows de lançamento fora de Minas, com uma referência simples na revista Veja, ultrapassa a casa das dez mil cópias. 

Estreia eclética
(por Okki de Sousa – Veja)

Em apenas seis faixas instrumentais, destila com grande habilidade nas aventuras pelo rock, modinhas mineiras, música clássica, e até pela música renascentista inglesa. Na explosiva mistura, atinge estilo próprio e bem-acabado. Como na faixa-título, em que o maestro Jaques Morelembaum rege pequeno naipe de metais, ou na inspirada “Abertura N.º 2”, na qual exibe notável senso de equilíbrio à frente de seu grupo Mantra, acima de tudo planta uma semente de inovação na musicalidade da raízes mineiras. 

Bela combinação de fissura e influências
(por Paulo Klein – revista Somtrês)

“A síntese ideal da música de nosso tempo, com lampejos do mais saudável rock mesclado ao conhecimento da Música como fato universalizante, em linguagem compreensiva a todos e para o sempre. Isso tudo está clara e fluidicamente apresentado neste segundo álbum 

Quando a Sorte te Solta um Cisne na Noite simplifica com grandiosidade as experiências pop e erudita do ‘Cisne’ de Minas. Pra lá de cantochão. (...) ‘Floydiana’, sem ser parecida com nada, lembra os belos momentos do conhecido Atom Heart Mother.

“A competência é marcante nas execuções e arranjos (tão perfeitos ao vivo quanto em disco), compartilhados com os músicos do Grupo Mantra, que também atuavam com Marco na Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. (...)

“Sobre a tessitura delicada, que nasce com o piano de Max Magalhães, surge crescente a base sutil do ovation e do violão folk, panorama ideal para uma trip de paisagens mineiras/universais, assopradas na flauta de Eduardo Delgado, no cello de Antônio Viola, na guitarra de Alexandre Araújo, na trompa ‘rosácea’ de Sérgio Gomes. Tudo é metronomicamente ritmado pelo baixo de Ivan Corrêa e pela bateria de Mário Castelo. 

“Há picos de culminância estética difíceis de definir e a calmaria dourada de sóis e rios, em ‘Alegria’ e ‘Adágio’, esta canção de câmara, feita para um amigo, ou para muitos, ‘Quando a Sorte te Solta um Cisne Na noite’. Até a lúdica imprevisibilidade da poderosa eclosão pop/rock da faixa ‘Pop Music’. É um cisne, enfim, que não passa em branco.

Suas apresentações: de embrião ao nascimento 
Marco Antônio Araújo toca violão ovation e violoncelo, acompanhado por Eduardo Delgado, flauta, Antônio Viola, violoncelo, Alexandre Araújo (seu irmão), guitarra, José Marcos Teixeira, teclados, Ivan Corrêa, baixo, e Lincon Sheib, bateria. Eles interpretaram músicas que integram seus três discos, e que incluem temas que somente seriam lançados no seu quinto disco, Lucas. Na primeira parte do programa, “Grave”, “Folk Song”, “Influências”, “Floydiana” e “Panorâmica”. Na segunda, “Para Jimmy Page”, “Caipira”, “Lembranças” e “Lucas”, todas do ainda inédito Lucas, e finaliza com “Abertura N.º 2”. 

A celebração ao vivo era desarraigada, o grupo impregnava as salas de concerto com varreduras polifônicas. O mestre do ovation explanava alto as suas ideias, fincadas na oposição ao que estava estabelecido pelos ditames do comércio fonográfico, imposto pelo jogo da indústria cultural, que bancou a glória e também o sepultamento precoce de tanta gente. Ele tinha naturalmente consciência do seu papel e das dificuldades para a glória efêmera, pois queria muito mais. 

O primeiro dos cinquenta shows que o Marco Antônio Araújo Grupo realizou pelas capitais brasileiras foi em agosto de 1984, no Masp. Para mim, foi um ano de agonia para que o show Instrumental 85 chegasse à Capital Federal. Com a lotação esgotada nos três dias, teve a participação de músicos indianos num duelo raro de seus instrumentos com o violão de Alexandre Araújo.

Nos camarins, era impossível se aproximar para conversar. O ponto crítico do espetáculo era o bis. A estrutura e sequência das músicas não mudaram, o que mudou foi a interpretação, de redenção total dos músicos ao musical, que caminhavam na direção do belo horizonte... Testemunhei isso, e tive a felicidade de editar fitas cassetes dos shows de São Paulo-1984 e Brasília-6 jun. / 1985. Acompanhávamos a turnê via tijolinhos nos jornais das outras capitais. 
Foi uma experiência familiar, uma vez que minha irmã e a minha namorada também foram comigo ao show. Foi absolutamente marcante, e de alguma forma não permitiu explodir de tristeza o rasgo nas nossas almas, pela rápida partida de Marco Antônio Araújo.

O Rock como um elemento
Entrevista de Marco Antônio Araújo a Irlam Rocha Lima, do Correio Braziliense, em 4 jun. / 1985 

A exuberância de seu trabalho instrumental dispensa o explícito do verso, suas rimas estão nas cores dos timbres
Competência musical sobriamente inspirada, doce, criativa, fluindo sem afetações ou experimentalismos desnecessários, já exaustivamente percorridos

Em conversa com o jornalista Irlam Rocha Lima, no final da excursão, em uma sala da Vasp (que patrocinou a excursão, pelo menos as passagens), em meio ao estudo do plano de viagem, ele falou sobre sua carreira, influências e sua alma musical, que não encontra parâmetro entre o que se produz musicalmente no Brasil atual. Expôs a dimensão do trabalho de Marco mostrado nas suas apresentações em Brasília, na excursão do show Instrumental 85

Marco não esconde suas fissuras roqueiras, apesar de condimentar seu rock com elementos da fase áurea do barroco mineiro e da melhor tradição sinfônica. Sua competência é marcante nas execuções e arranjos, tão perfeitos ao vivo como em disco. Na atual olimpíada do banal, Marco Antônio Araújo cintila. Em primeiro lugar, porque ele é músico.

Marco Antônio, como você situa seu trabalho nos estreitos limites entre o erudito e o popular?

Eu, como músico profissional, não faço nenhuma distinção entre o erudito e o popular. Você está falando que a relação é estreita. Eu acho que ela é íntima. A única coisa que conta dentro de um trabalho artístico de altíssimo e de baixíssimo nível, como existe também no campo erudito, é que uma coisa é interligada com a outra, pois todas as tendências vêm de uma mesma raiz popular anônima, a raiz popular do folclore. São tratamentos diferenciados dados aos temas folclóricos do sentimento da região, do povo, da nação, e por aí afora. Então eu acho que a única coisa que existe entre o erudito e o popular, se a gente puder separar essas duas áreas, é uma diferença de acabamento.

Como é que se processa sua alquimia? Com informações, com as influências que você recebeu dos Beatles, do barroco mineiro e da música clássica, o que é que acaba prevalecendo?

Além de não ter preocupação com prevalência desse ou daquele elemento, o meu trabalho não é a estilização de nenhum estilo. Não é a estilização de nenhuma tendência. Eu não procuro por exemplo fazer uma coisa parecida com o que os Beatles fizeram, nem com o barroco mineiro, nem com qualquer outro tipo de tendência. Porque eu acho o seguinte: o artista é um filho das vivências dele. Eu tive essas vivências, e elas são fortes. Sou fortemente influenciado pela época pop. Eu cito os Beatles, porque eles foram os geradores do movimento pop. Cito de vez em quando o barroco mineiro, porque sou de Minas Gerais, e Minas é um Estado muito musical, cheio de folclore, e o barroco mineiro é um tratamento erudito dado aos temas do folclore mineiro. Então, o meu trabalho é simplesmente uma consequência dessa minha vivência musical, de mineiro ambientado em Minas Gerais, e de uma influência pop decorrente de minha geração.

É difícil ser músico em Minas, sem pertencer ao Clube de Esquina, a “turma do Milton Nascimento”?

Eu não me sujeito a nenhum tipo de dependência. E acho que a pessoa tem que se garantir pela sua competência, pela sua qualidade, pela sua proposta. Tem que medir seu tamanho a partir de si próprio, e finalmente, e vitoriosamente, sem estar apoiado a grupos por interesses, ou apadrinhado por ninguém. Acho isso muito importante.

Numa época em que é muito forte a tendência para absorção do chamado som descartável, você vê muita dificuldade para colocar e veicular esse tipo de música que faz, que é uma coisa muito mais elaborada?

Quanto mais material descartável tiver, maior vai ser o meu espaço. Porque a saturação de um certo esquema do material descartável está acontecendo. Então, quanto mais saturado ficar o público, por isso, ele vai acabar procurando outras opções, e aí está o meu campo de trabalho.

Apesar de possuir quatro LPs gravados, você continua sendo um artista independente. Isso é uma opção sua, ou as gravadoras é que não se entusiasmam muito pelo tipo de música que você faz?

Veja bem: eu procuro condições para que meu trabalho aconteça num nível que acho que ele mereça. Qualquer esquema que fosse montado por trás do meu trabalho, e que me desse confiança, essa segurança e conforto, eu abraçaria, numa boa. Eu não tenho preconceito contra gravadora. Não tenho preconceito contra nada, desde que eu tenha condição de trabalhar. Em 1980, por exemplo, antes de gravar meu primeiro disco, tentei fazer meu trabalho através de uma gravadora, mas ele foi taxado burramente de música clássica. Argumentaram também na época que música instrumental não vendia, que o público não tinha sensibilidade para isso. Esse tipo de argumento furado foi o que ouvi por aí afora. Então, hoje, quando já vou lançar meu quinto LP, eu criei um sistema para que isso fosse possível. E esse sistema, atualmente, está muito sólido. Tanto que estou fazendo uma turnê nacional para o lançamento de um disco de música instrumental-independente, no Brasil. Posso provar com isso que meu sistema, que o meu ponto de vista está certo, e que está acontecendo. Pra eu entrar em outro esquema agora, tipo uma gravadora, seria um trabalho com um preço muito alto, porque são dez anos de estrada. Isso ninguém dá de graça pra ninguém, nem faz tratados com gravadoras da maneira que elas querem. Por isso, acho completamente impossível minha integração a uma gravadora, pura e simplesmente.

Mesmo com toda essa bagagem, com esses quatro discos lançados, você, seu trabalho, até há pouco, estava restrito a Minas Gerais. Nos outros estados, a não ser os iniciados, pouca gente conhece sua música. Agora, com o show Instrumental 85, você faz uma excursão de Porto Alegre a Fortaleza. Isso é uma grande ousadia, concorda?

Bom, eu acho que a força motriz de qualquer evolução é a ousadia. Não uma ousadia sem fundamento, uma porralouquice qualquer, mas uma coisa bem-pensada, bem racional. Eu sou uma pessoa muito racional. Nunca dou um passo maior que minhas pernas. Então, como você disse, o meu trabalho é muito conhecido em Minas. Mas acontece que eu já estava sem espaço em Minas para tocar. Já começava a virar repetição. Acho também que uma das motivações para a evolução é o sufoco: você chega num ponto em que tem que tomar uma atitude. E essa atitude só vem da necessidade. Eu senti a necessidade de abrir o meu campo de trabalho. O meu trabalho sustenta uma equipe enorme, que me cobra trabalho, e eu tenho que sobreviver disso, juntamente com outras pessoas. Então, eu tenho que ser ousado, e sei que estou sendo ousado ao fazer essa excursão – com o imprescindível auxílio da Vasp, e com o apoio de uma empresa igualmente ousada, que investe em música instrumental no Brasil. Esse trabalho estava restrito a Minas e São Paulo, mas agora pode ser ampliado por várias regiões brasileiras.

Com a chegada da “Nova República”, você vislumbra melhores dias para a música, para as artes em geral, para a cultura no Brasil?

Eu torço para que isso aconteça, mas quero deixar claro uma coisa: nunca dependi do sistema anterior, e pretendo não depender desse novo para a sobrevivência do meu trabalho. Mas eu torço para que a situação seja muito melhor do que já foi, não só no campo artístico, mas principalmente no campo social. Acho que a criação do Ministério da Cultura deveria estar muito voltado para a preservação da cultura nacional, para a restauração da cultura, que está sendo comida pelas baratas nos museus. Eu estou falando isso não é figurativamente, não. Estou falando literalmente. Fiz uma pesquisa sobre música mineira para a Companhia Siderúrgica Mineira, com um contrato fechado para a realização de três discos, com músicas inéditas do barroco mineiro, e achei partituras no Museu de Mariana faltando várias notas. Essas notas foram comidas pelas baratas.

Lucas

Lucas está entre os cinco melhores discos do Brasil em 1985, uma espécie de continuidade sintética de toda uma vida. Na faixa “Lucas”, a canção de ninar e o acalanto finalmente chegaram ao sintetizador, e vice-versa. Segundo o jornalista Carlos Felipe, “uma canção de ninar da era eletrônica”.

Inesquecível foi a abertura do show e coquetel de lançamento do disco Lucas, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, no dia 26 de novembro de 1985. 

Nesse dia, Marco Antônio Araújo lançou o seu quinto LP. Ele entrou no ambiente com Lucas, seu filho, mais a bailarina e professora de dança Déa, mãe também de Ana, nascida nesse mesmo ano. E com aquele jeito seu característico diz que aquele menino é uma das pessoas que mais ama na vida, e por isso tinha dedicado o show e o disco a ele.

Além de produzir os cinco discos de Marco Antônio Araújo, o selo independente Strawberry Fields (outra arrojo do músico) atuou como produtor, trouxe artistas a Belo Horizonte e produziu discos. Para a Belgo – Companhia Siderúrgica Mineira, o selo Strawberry Fields cumpriu dois LPs de um contrato que previa três discos, com músicas inéditas do barroco mineiro. O LP Concerto Barroco N.º 1 saiu em 1984, e o Concerto Barroco N.º 2, em 1985. Durante a pesquisa, Marco Antônio Araújo encontrou partituras no Museu de Mariana, em que faltavam várias notas, pois foram comidas pelas traças.

Para o Banco do Brasil, Marco Antônio Araújo produziu o primeiro disco do Projeto Música da Inconfidência, que seria concluído em 1989, juntamente com o bicentenário da Inconfidência Mineira. Neste LP, foi apresentada uma obra inédita de Manoel Dias de Oliveira, músico pouco conhecido do barroco mineiro, que viveu no Vale do Rio das Mortes. 

Como produtor de shows, o Strawberry Fields realizou um projeto que levou diversos músicos de Minas a dezenas de cidades do Estado. Foi um trabalho que abriu campo para experiências semelhantes, e que serviu para que os artistas da terra percebessem o espaço que tinham para conquistar.

Coda

No piano da casa de seu pai, com a tecla do lá mais grave queimada de cigarro, o principiante Marco Antônio Araújo passava horas a fio em cima das mesmas notas, sem saber que não teria chances de repor a tecla. Quando escrevia partituras, ou praticava violoncelo, ele ficava tão azedo que brigava até com crianças impertinentes, e pedia que encostassem a porta do quarto, ou então que usassem algodão nos ouvidos. Suas explosões temperamentais geralmente ocorriam quando ele cozinhava, e também quando passava horas temperando seus haddocks e bebendo vinho branco gelado, acompanhado de queijo. 

A 3 de janeiro de 1986, recém-chegado de Nova Iorque, uma segunda-feira triste, depois do almoço, ele dá uma descansadinha... e deixa de retornar algumas ligações. Daquela tarde, não acorda mais, pois o descanso transforma-se em agonia. No Prontocor, se ele escapasse da agonia, disseram, teria de viver o resto de seus dias preso numa cadeira de rodas. Assim, morre na quinta-feira (6 jan. / 1986), e seu enterro ocorre sete dias depois, outra segunda-feira amarga.

Seus últimos projetos: musicar as novas histórias do musical Chapeuzinho Vermelho, com letras de Fernando Limoeiro, cenários de Álvaro Apocalypse e grande elenco, com a participação de Carla Camurati. O espetáculo John Lennon Remember também estava nos projetos de Marco Antônio Araújo, para ser apresentado, igualmente ao Instrumental 85, por dezessete capitais brasileiras. Já estava com datas reservadas para o mês de dezembro de 1986, em Belo Horizonte.

Frases

“Eu adoro os Beatles, os curto desde os seus primeiros discos.”

“Não existe artista ambientado com o palco. Você está ali no camarim, morrendo de rir, conversando. No palco, é outro papo. É uma coisa que eu não sei definir o que é; não é um lance assim de vaidade, do egocentrismo, de autoafirmação, não é nada disso. É uma coisa diferente que acontece, você fica esquisito, todo mundo esperando o que você faz, é um lance muito louco. Tem uma frase bonita demais de um filósofo hindu, que é uma coisa incrível. Ele fala que a maior forma de expressão que existe é o silêncio, porque do silêncio você pode esperar tudo.”

Estado de Minas: Marco Antônio Araújo, como artista, você se sente um ser especial?

É um lance em que tenho pensado muito, ultimamente. A diferença entre um débil mental e um gênio é mínima. Porque o milagre de existir uma pessoa já está feito. O milagre de você existir já é tão incomensuravelmente maior do que uma pessoa pode fazer que esse tipo de questionamento fica ridículo. A possibilidade da pessoa é tão infinita, a partir do momento em que ela seja concebida e exista, que o questionamento do egocentrismo, da vaidade, não tem sentido. Porque se você pegar, por exemplo, o maior gênio que já existiu, e que é Beethoven, que morreu dizendo que nada sabia de música, que não sabia fazer contraponto, se quem mais soube falou que não sabia direito o que está fazendo, pode falar alguma coisa? Eu acho que essas proporções do sentimentalismo, do egocentrismo, da emoção, são muito variáveis, e dependem da personalidade e da proposta da pessoa. Se vestem Michael Jackson de prateado para ganhar milhões de dólares, não é que ele está fazendo isso, mas uma máquina é que está atrás disso. Então, esse lance de o artista fazer parte da personalidade da pessoa, se é uma pessoa simples ou complicada, como vivemos num sistema capitalista, as pessoas são induzidas a fazer desse jeito, ou a gravadora a manda embora, porque não sabe mais, e assim botam um robô qualquer no lugar dela. Mas a pessoa que tem uma proposta não vai abrir mão dela, porque senão ela vai ficar insatisfeita. 

Discografia

Influências – com as músicas “Influências”, “Abertura N.º 2”, “Panorâmica”, “Folk Song”. Esse é o disco debut, marcadamente original, assim como a personalidade de Marco.

Quando a Sorte Te Solta um Cisne na Noite – o “disco do cisne”. O título do LP já reverencia as suas influências, por ser pastoral, e conter “Floydiana”, o disco assume um pressuposto de ser o “disco do cisne”, em contraponto ao “da vaca”. Destacam-se as faixas “Adágio” e “Pop Music”.  É o seu disco mais rock e também o mais conhecido dos seus cinco discos.

Entre um Silêncio e Outro – o mais erudito de seus trabalhos, reconfortante. Traz uma linda capa e encarte, que desaparece nas prensagens posteriores. “Acho primoroso este disco, até pelo fato de, em alguns movimentos, se aproximar do clássico, que o Marco Antônio sempre foi.” (Nestor Santana, produtor)

Animal Racional – A capa segue os padrões do disco, uma coletânea com novos arranjos para clássicos, algumas músicas anteriormente gravadas. Foi financiado pela Vasp, tem um texto do crítico Maurício Kubrusly, que inicia o reconhecimento devido ao grande músico. 

Concerto Barroco N.º 1.

Concerto Barroco N.º 2 .

Projeto Música da Inconfidência.

Lucas - Rock e demais influências elevadas à perfeição. Como não viajar em “Lucas”, música que leva o nome do seu filho? Ainda temos “Lembranças”, e também a transcendental “Para Jimmy Page”. 


Barroco progressivo
(por Walter Sebastião) – Estado de Minas, 23 nov. / 1999 

“(...) Ainda hoje, existem trabalhos inéditos do músico. São eles: Fantasia, (uma sinfonia), Folhas Noturnas e Quatro Condições de Um Pássaro Solitário, além de peças para violão e instrumentos de câmara. Trata-se de material que pode virar vídeos, songbooks, discos etc., mas para isso é necessário patrocínio. Até pela necessidade de que o trabalho seja realizado com a qualidade necessária, que é a marca de Marco Antônio”, avisa Alexandre Araújo, seu irmão.

Participações

Marco Antônio Araújo participa do primeiro LP do Som Imaginário, e também do Quando Fui Morto em Cuba, de Marcus Ribas.

Algumas trilhas sonoras produzidas por Marco Antônio Araújo

Rudá, peça de José Wilker. 

Cantares, espetáculo do grupo O Corpo. 

John Lennon Remember, show campeão de público em toda a história do Palácio das Artes, o maior teatro mineiro. Arranjador requintado, homenageou por diversas vezes os Beatles e os Rolling Stones, o que julgava ser uma “verdadeira música clássica”. Numa dessas homenagens, John Lennon Remember, sob a sua direção, teve a participação da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e do Corpo de Baile e Coral da Fundação Clóvis Salgado. 

 

papel de parede

 Homenagens

Com o acróstico MAPA (Marco Antônio Penna Araújo), o grupo Uakti batiza o seu sexto álbum.

 

1985

“Esta tour será a maior que eu já fiz. Estou tão excitado sobre algumas ideias que temos planejado. Tudo será baseado no Bark At The Moon. Talvez teremos morcegos hidrófobos no auditório. Ou talvez alguém traga um lobisomem para a arena, tudo será liberado. Vai ser pirante. Queremos todos envolvidos e sentindo o show. Se o cara que viu nossa última tour e pensou que foi algo, esperem para verem essa. Talvez eu mesmo coloque fogo em mim no Madison Square Garden. Eu sempre quis sair de lá numa chama de glória”. (Ozzy Osbourne)


The Cooper family (Alice, Sheryl, Calico, and Dash) na Disneyworld. Foto: Certas Coisas Vintage Franquia

Na primeira entrevista da Legião Urbana para o Estadão, em 1985, a banda se definia da seguinte maneira:" Não é new wave, heavy, nem punk. É Legião Urbana "

Foto: Juvenal Pereira - https://www.instagram.com/p/BMZrMfMgSo6/ - Fonte: Arquivo Legião  

2 janeiro

Legião Urbana lança o seu primeiro LP

Rock in Rio foi um marco. Um projeto realmente grande.

Depois de dois anos sem fazer shows, Rita voltou aos palcos na primeira edição do festival Rock in Rio. “Odiei ter participado em 1985”, ela comentou em referência ao tratamento inferior que os artistas brasileiros receberam do evento.

22 janeiro a 22 fevereiro

Carlos Vergara organiza individual no Brazilian Centre Gallery, em Londres, onde expõe pinturas em grandes formatos. É codiretor, com Belisário França e Piero Mancini, do vídeo Carlos Vergara: Uma Pintura, que integra a Série RioArte Vídeo/Arte Contemporânea.

24 jan.

“Eu não posso precisar nem o mês nem qual das passeatas foi filmada, não me lembro. Glauber queria fazer um filme sobre aquele momento, mas ainda não tinha um projeto ficcional. Fizemos apenas um registro documental. A repressão política e a falta de liberdade de expressão impediram a continuidade do projeto. Em fins de 1969, Glauber e eu saímos do país.”
   (Affonso Beato)

Fevereiro

“Tudo corria velozmente e, em fevereiro de 1985, entramos no estúdio para gravar o nosso quinto disco. Com a entrada do Pappo, o som ficou mais pesado, e como ele é um soberbo guitarrista, o som ficou como sempre sonháramos. Mas nosso sangue de roqueiro nos empurrava para o lado oposto do que se supõe que era o rock comercial do momento. Mais uma vez, dissemos ‘foda-se’, e em três dias gravamos três temas: ‘Robot’, ‘Olho Animal’ e ‘Mulher Fácil’. O quarto tema, ‘Deus Devorador’, foi composto e gravado no terceiro dia no estúdio, feito em um take.” (Rolando Castello Jr.)

Março

Brasília, no Verão Cultural,  a Legião Urbana se apresenta com Cida Moreyra.
Voltando do Rio de Janeiro, para fazer o show de lançamento do primeiro disco, no espetáculo Verão Cultural, onde dividia as apresentações com Cida Moreyra; Renato Russo foi o terceiro a chegar ao seu show, o primeiro fora o porteiro. A camiseta branca e sempre o casaco amarelo, arredio, incrivelmente branco como um fantasma notívago.

Abril

Fundação, a que começa, Ary Pára-raios – Editor de Cultura do Correio Braziliense

4 abr.
   
Uma banda que faz escândalo*

Um dos expoentes do novo estilo de rock nascido em Brasília e que faz sucesso no eixo Rio/São Paulo, o grupo Escola de Escândalo se apresenta no próximo dia 7, no Rock in Prima, promoção do Clube Primavera de Taguatinga. A banda mostrará seus novos trabalhos como Luzes, Complexo e Quatro Paredes (que fala da vida de um presidiário), além de outras músicas já bastante conhecidas do seu público, como Popularidade e Menino prodígio, executadas nas rádios FM do Rio de Janeiro.
Formado há um ano por Bernardo Mueller, vocal; Marielle Loiola, vocal; Geraldo Ribeiro, baixo; Fejão (sem i mesmo), guitarra; e Eduardo Espinoza, bateria, o grupo já tem uma agenda um tanto quanto intensa. É sempre convidado para apresentações em danceterias do Rio de Janeiro, aonde está com um show marcado no Circo Voador para o final destes mês.
Também está em fase de acertos finais um espetáculo em Goiânia. Escola de Escândalo tocará, ainda, no Festival de Música da Lagoa Formosa, que será realizado de 30 de maio a 2 de junho, e, no dia 9 de junto, estará no Ginásio de Esportes de Brasília, ao lado de Paralamas do Sucesso e outras bandas de rock da cidade.
Bastante eclético é o que se pode dizer do conjunto de influências que caracterizam as músicas do Escola de Escândalo. Mas seus integrantes preferem não usar rótulos para um estilo que consideram próprio. Todas as composições têm letras de Bernardo Mueller e melodias criadas coletivamente, o "que faz das músicas, segundo eles, um traballho diferente, pois todos nós sofremos influências de nossos estilos preferidos".

*4 abr. / 1985.

 10 abr.

Tique-tique
Nervoso demais
J. Caribé

 Não se enganem, o Kid da foto não é o Kid Gatilho, e nunca trabalhou em filme de bang-bang. Posso assegurar também que não faz parte dos quadros da polícia. Este, meus amigos, é o Kid do grupo musical Magazine, que esteve em Brasília apresentando-se no concerto Rock In Prima, festa promovida pelo Clube Primavera e produzida por este locutor que vos fala.
Vocês perguntarão, porque o Kid aqui neste espaço sem os seus companheiros de grupo? É o seguinte, este sarará de quase dois metros de altura não é só cantor e produtor de discos, ele é também um emérito espancador de crianças, como demonstrou na tarde de sábado, no restaurante do Kingstown Hotel, em Taguatinga. Usando os tradicionais óculos para espantar crianças, o Kid, depois de ouvir de um garoto de mais ou menos 4 anos o tal “Tique-tique Nervoso”, não ficou muito alegre, e gritou com o fedelho. Com jeito meio estranho, o Kid Porrada ouviu do garoto o seguinte: “Você parece gay.” Isso foi o bastante para que Kid Safanão sentasse o cacete no garoto, até postá-lo na “lona”. Marcão Adrenalina, Luizinho Tostes e muitas outras pessoas viram essa demonstração de selvageria, e tentaram reagir em defesa do garoto, mas o agressor partiu em retirada, refugiando-se em sua caverna. Um aviso aos navegantes: “Quando contratarem o Magazine para um show em Brasília, é bom guardar as crianças em casa.”

14 abr.

Revitalização (Fernando Naporano)

Depois do vazio dos anos 70, veio o punk, os wavers, os experimentalistas, e aqueles que decidiram revitalizar ou transfigurar a pop music. Em um dos aspectos revivalistas, nasceram os neopsicodélicos.

22 abr.

Sarney assume a Presidência.

26 maio

Os Beatles do Brasil

Celso Fernando vive Paul McCartney; Marcus Ricardo, George Harrison; Ronaldo José é John Lennon; e Vítor Bonesco, Ringo Starr. Eles relembram a história e o mito da Beatlemania, através do show Beatles Forever In Concert. Em 1976, Celso, Marcus, Ronaldo e Vítor passaram a estudar a discografia do conjunto. Buscaram executar a obra em detalhes. quatro anos mais tarde, conheceram Edson Madella, professor e diretor de teatro, que assumiu a ideia do espetáculo. O resultado desse sonho pode ser visto no show da Sala Villa-Lobos, Teatro Nacional de Brasília, nos figurinos, maquiagens, perucas e barbas, terninhos sem golas, amplificadores Vox, uniformes do Sgt. Pepper, instrumentos coloridos do Magical Mistery Tour.
Para completar, um computador comanda a bateria de vinte e um projetores de slides. Um show multivisionário ilustra as vinte e cinco músicas apresentadas. Beatles Forever é um empreendimento à altura do significado cultural da Beatlemania. Certamente é uma prova de que o sonho está vivo.
Principalmente agora, quando voltam a existir grupos que tocam Beatles.
Durante o show, os altofalantes anunciam que os arranjos executados não são reprodução dos originais dos Beatles, e sim, gravados pelos Beatles Forever. Destaco o solo de guitarra em “I Need You”, onde o guitarrista Marcus Rampazzo ensina a usar o botão de volume de modo a obter a síncope, o ritmo quebrado. No final, em cima do prédio da Apple, outra  nuance. O guitarrista Rampazzo simula aquecer as mãos, assim como fez Harrison. Detalhes muito próximos da carreira do fabuloso quarteto de Liverpool. Marcus Rampazzo me disse que uma apólice para o seguro da
aparelhagem é impagável.

• Dois anos mais tarde, em novembro de 1987, revi o espetáculo duas vezes. No shopping, onde eu trabalhava, sem a sua maquiagem, o reconheci durante a sua folga do show. Indiquei-lhe uma edição alemã do Álbum Branco, que ele acabou comprando, com outros importados dos Beatles.
Em contrapartida, me convidou a conhecer e a tocar nas guitarras do show.
As guitarras, verdadeiras relíquias, não possuíam seguro. Rampazzo é um dos maiores colecionadores mundiais da revista Guitar Player, guarda num cofre em sua casa fotos dos Beatles e partituras de George Martin.

3 junho

Renato na Playboy

Na "Playboy" que está nas bancas, uma minientrevista de Renato Russo, vocalista e líder da Legião Urbana, ao redator-chefe da revista, Carlos Costa. Renato fala de música, sucesso, política, tietagem, fantasia, nova geração e rock. Sobre Brasília ele disse o seguinte: "É uma cidade muito louca que espelha o Brasil. Centro estudantil, tem uma das maiores favelas do país, além de ser o centro da política, sem muita ética. Muito de tudo isso inspira nossas letras"

Correio Braziliense, 3 jun. / 1985 - Coluna Música - Irlam Rocha Lima

 4 jun.

O Rock como um elemento - Entrevista de Marco Antônio Araújo a Irlam Rocha Lima, do Correio Braziliense

30 jun.

Carta aberta a James Marshall Hendrix

Julho

Jeff Beck lança o álbum-solo Flash com a participação de Rod Srewart em "People get ready".

13 jul.

Bobby Geldof conseguiu reunir o Status Quo de novo, em 1985 para tocar no Live Aid o que eles fizeram com grande alegria. A recepção à banda foi magnífica, e a volta era inevitável... Contudo, Rossi e Lancaster não concordavam com mais nada, musicalmente falando. Parfitt tomou o partido de Rossi e Alan saiu da banda.

28 jul.

 A unidade é Bob Dylan

 Agosto

Vandré, poema de Reynaldo Jardim

26 ago.

Show de lançamento Rumores

Rock Brasília, 1985

Bernardo Scartezini – Correio Braziliense, 16 nov. / 2000

“(...) Baterista sem bateria na época do Elite Sofisticada, Rogério Lopes é daqueles que não guardam apenas boas memórias dos anos roqueiros. ‘Chegamos a um ponto que ninguém mais aguentava gastar dinheiro alugando salas de ensaio’, lembra o atual professor de psicologia, que agora tem uma Premier em casa, para quando quiser incomodar os vizinhos. “E a concorrência era feroz. ‘Não dava pra vacilar. Acho que se alguém visse no estúdio a fita master de uma outra banda, não ia pensar duas vezes, se tivesse a chance de jogá-la no lixo’, testemunha Rogério.
“Balé também guarda seus rancores. Mas por outro motivo. O Escola de Escândalo chegou a viajar até o Rio, para gravar nos estúdios da EMI o material de seu primeiro disco. Produção de Philippe Seabra, da Plebe Rude. Com o material eternamente engavetado, via bandas com menos tempo de ralação, como o Arte no Escuro, protegido de Renato Russo, lançarem seus discos na praça, pela mesma EMI, ‘Nós lá, na mesma, e outros levando a grande vida...’
Rumores pegou as quatro bandas em fase de transição. Todas perderiam seus vocalistas originais. Marielle, que canta boa parte de ‘Complexos’, seria chutada da Escola de Escândalo em questão de semanas. Rodrigo Leitão sairia do Finis Africae em questão de dias. No show de lançamento do disco, na Concha Acústica, o frontman já era Eduardo de Moraes. No Detrito Federal,  Podrão perderia o posto para Cascão, que saiu da bateria para assumir o microfone.       No Elite Sofisticada, Luís Gastão foi trocado por Ricardo Junqueira. Tamanho troca-troca faz de Rumores um registro ainda mais arqueológico.”


21 a 28 ago.

Cine Brasília. Mostra Glauber por Glauber, o fato cinematográfico do ano.
No quarto aniversário da morte de Glauber Rocha, na abertura de sua retrospectiva mais completa, o presidente Sarney discursa em sua memória.

 É fundado por dona Lúcia Rocha o Tempo Glauber, que vem estimulando a realização de estudos, teses e livros sobre a obra de Glauber Rocha e o Cinema Novo. Também vem produzindo mostras, vídeos, exposições, e investindo na formação de profissionais.

23 setembro

Sarney, na abertura da Assembleia Geral da ONU, repete frase de Tancredo: “O Brasil não pagará a dívida externa com a fome do povo.”

Outubro

John Cage na 18.ª Bienal de São Paulo.

6 out.

Domingo. Cage e Augusto de Campos se apresentaram no auditório do  Museu de Arte Contemporânea, um encontro idealizado pela meio-soprano Ana Maria Kieffer (curadora do setor de música da Bienal) e pelo tenor  alemão Theophil Maier, com auxílio de Caio Giarca nos meios visuais. Além da apresentação do Cage Campos, aconteceu também o happening Cage, uma mostra sonora das obras do compositor, realizadas por vários grupos musicais, num total de 50 músicos espalhados pela Bienal, executadas por justaposição, o que deu oportunidade aos ouvintes de apreciá-las individualmente ou acopladas a outras.

6 novembro

McCartney acusa Lennon: Era um porco intrigante

20 nov.

Viagem pesada: dois roqueiros dos Titãs flagrados com heroína

Dezembro

Egum, no dizer africano Alma (Ary Pára-raios)

16 dez.


Rock: fim do culto à droga
 
18 dez.

Em liberdade – Justiça dá habeas corpus ao líder dos Titãs 

Em liberdade
(Veja*)

Vinte e seis dias depois de ser preso em São Paulo por tráfico de heroína, Arnaldo Antunes Filho, 25 anos, líder do conjunto de rock Titãs, saiu da cadeia na segunda-feira passada graças a um habeas-corpus concedido por unanimidade de votos pela 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo. Acusado de vender 30 miligramas de heroína a Antônio Bellotto, guitarrista do conjunto, Arnaldo negou-se a revelar quem lhe fornecera a droga. Essa negação o transformava, aos olhos da lei, em traficante sem direito a aguardar o julgamento em liberdade. O juiz encarregado do caso negou por três vezes o pedido de liberdade provisória apresentado pelos advogados do cantor.

O caso deu uma reviravolta quando um dos advogados de Arnaldo bateu às portas do Tribunal de Justiça em busca do habeas-corpus com a alegação de que a polícia não fizera um flagrante de tráfico. Com esse precedente a polícia terá agora muita dificuldade para prender traficantes. Enquanto se esperava pela decisão da Justiça, vários artistas manifestavam solidariedade ao cantor. "Acho um absurdo o que estão fazendo com ele", desabafou Rita Lee, em São Paulo. No Rio de Janeiro, pensou-se mesmo em promover um show pela libertação do líder dos Titãs.
Outras pessoas presas no mesmo dia que Arnaldo não tiveram a mesma sorte. O cidadão Daniel Nery, preso no 15º Distrito Policial por tentativa de roubo de uma Brasília, por exemplo, ainda se encontrava atrás das grades no fim da semana. Ao se mostrar liberal com uma pessoa que vendeu heroína a um colega de trabalho e rigorosa com um ladrão humilde, a Justiça paulista abriu um precedente polêmico. Para Cláudio Golbetti, delegado titular da Divisão de Entorpecentes da polícia paulista, a situação é clara: "Um traficante é mais perigoso do que um ladrão, porque coloca na praça uma droga que pode levar à morte", diz.

   *Veja 18 dez. / 1985.

• Os Dents Kents surgiram em 1985 como sátira ao DK, e o seu repertório dura cinco minutos. "Em comprimidos, minutos de hardcore", diria Jello Biafra.

Música

Bobby Geldof consegue reunir o Status Quo de novo para tocar no Live Aid, o que eles fizeram com grande alegria. A recepção à banda foi magnífica, e a volta era inevitável. Contudo, Rossi e Lancaster não concordavam com mais nada, musicalmente falando. Parfitt tomou o partido de Rossi, e Alan saiu da banda.

 Michael Jackson compra o catálogo dos Beatles, por US$ 47 milhões. Ele deu um lance maior do que o próprio Paul McCartney, que nunca perdoou o que julgou traição.

 John Fogerty. Seu álbum-solo Centerfield é primeiro lugar na parada dos Estados Unidos.

Final do ano: Ronnie Cord é internado com câncer no pulmão.

Uma série de trabalhos que Andy Warhol desenhou em 1985, em um computador Commodore Amiga 1000, e que não tinham visto a luz devido à dificuldade de ler o conteúdo dos disquetes.

Artes

O desenhista francês Jean Giraud, o Moebius é condecorado com a ordem de Cavaleiro das Artes e das Letras pelo presidente francês François Mitterand em 1985.

 Pedro Escosteguy participa da Retrospectiva Opinião 65, na Galeria de Arte do Banerj/RJ, com Estória e O Circo. Participa da mostra Caligrafias e Escrituras, promovida pelo MinC/Funarte, na Galeria Sergio Milliet e Espaço Alternativo.

Literatura

Dez anos depois, Robert Crumb voltaria às páginas de uma revista brasileira, nas cinco edições de Porrada (com excelentes textos do ligado Franco de Rosa). Crumb era o carro-chefe, com seus quadrinhos clássicos.

• Atrapalho no Trabalho reúne os dois livros de John Lennon In His Own Write e A Spaniard In The Works, versão para o português pelo poeta Paulo Leminski, que adaptou a viagem e os trocadilhos lisérgicos à realidade brasileira.
O mestre com certeza aprovaria. Os não afeitos a esta viagem, leiam-na no original. Na página inicial, Leminski diz não ter traduzido, e sim transcriado os livros. Você pode encontrar uma cópia na banca do Sebo itinerante, que acompanha os festivais alternativos pelo Brasil. Custava 35 reais. Editora: Brasiliense.

 É editado O Século do Cinema, de Glauber Rocha. Editora Alhambra. Rio, 1985.

 Acid Dreams: The Complete Social History of LSD. Martin A. Lee & Bruce Shlain, Grove Press, Nova York. Porém, os casos ligados ao LSD aumentaram continuamente, chegando a 517 nos últimos seis meses de 1985, último período sobre o qual foram divulgados números. As autoridades do INAD acham que essas cifras representam uma fração mínima do consumo atual de LSD no país. Não se dispõe de números para comparar a popularidade da droga nos anos 60 com a de agora, porque o LSD foi reunido com várias outras drogas para uma análise estatística desse período.

  Jerry Garcia é preso por porte de cocaína e heroína. Ele é sentenciado a cumprir uma temporada numa clínica de reabilitação.

Filmes

The Look, Andy Warhol como ator.

 It’s All True. Foi considerado um filme perdido, até que, em 1985, os negativos de Quatro Homens e Uma Jangada foram descobertos num depósito da Paramount, e cuidadosamente recuperados, graças à colaboração de instituições de diversos países. Com a ajuda de Richard Wilson, remanescente da equipe original de Orson Welles, o filme foi montado do modo supostamente mais próximo possível às intenções do diretor.

• Céu em Transe (Ricardo Favilla). Aos 18 anos, registrou o funeral de Glauber em sua câmera Super-8. Durante a exibição, em 1985, na competição de filmes em Super-8, no Festival de Gramado: “Algumas pessoas ligadas ao Glauber souberam da projeção e quiseram apreendê-lo. Tiramos o curta de lá às pressas. Ele nunca mais foi exibido”, conta Ricardo Favilla.

Obituário

10 janeiro

Morre músico Anton Karas (O Globo - 11 jan . / 1985)

Viena. - O compositor Anton Karas, autor e intérprete, na cítara, da célebre música do filme O terceiro homem morreu ontem aos 78 anos num hospital de Viena, vítima do que foi descrito apenas como uma longa enfermidade. Serralheiro de origem, Karas, natural da Áustria, virou músico quando achou uma velha cítara num beco. Depois de algumas lições, tornou-se um mestre no instrumento, chamando a atenção do diretor de cinema Carol Reed, que em 1948 lhe encomendou a música para o tema de Harry Lime, personagem de Orson Welles em O terceiro homem. A canção, como o filme, foram sucessos, lançando Karas para a celebridade.

16 jan.

Morre o pintor Arpad Szenes (1897-1985).

28 março


Marc Chagall (1887, Vitebsk, Rússia – 1985, Saint-Paul-de-Vence, França).

14 setembro

Julian Beck (1923-1985).

9 outubro

Emílio Garrastazu Médici (1905-1985)

10 out.


Orson Welles morre de ataque cardíaco. Tinha 70 anos.

12 dezembro

Ian Stewart, roadie and pianist with the Stones from very beginning, has been suffering from acute respiratory problems for several days and is visiting a specialist in a West London clinic when he dies of a massive heart attack. He was 47. Stewart was the only person in their entourage who had remained unaffected by the wealth and fame. He still herded them on stage by yelling, “Come on, my little shower of shit. You’re on!”

Rock'n'Roll Circus. As trinta e oito latas de filme estavam perdidas desde 1971, quando os Rolling Stones, se mudaram de Londres para Paris, para fugir do Imposto de Renda. No pequeno escritório inglês da banda não houve espaço para acomodar as latas do filme. “Tudo foi parar na garagem do tecladista e manager dos Stones, Ian Stewart, e só foi descoberto depois da morte dele, em 1985”, conta o diretor, Michael Lindsay-Hogg.

 

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